CTV: Atropelamento, detenção e impunidade

Posted: January 28, 2017 in Luanda

ctv-zacarias

Zacarias conta o infortúnio que aconteceu as suas duas irmãs na manhã do dia 18 de Fevereiro de 2016. As irmãs de Zacarias, Suzana Albino de 34 anos e Teresa Jamba Cangombe “Bita” de 23, moravam no Huambo e vinham em dezembro de 2015 para as festas de passagem de ano. Em fevereiro e neste infausto dia 18 estavam a fazer a viagem de regresso para o Huambo, quando ao tentarem atravessar a estrada (a estrada de Catete na Sonangalp, Estalagem) foram as duas mortalmente atropeladas por um mini-autocarro de marca Coaster.

Tiveram morte imediata. Faziam-se acompanhar de duas crianças filhos da irmã falecida de 34 anos que ficaram inconscientes devido ao impacto e apenas se recuperaram no hospital, ficando porém com várias fraturas.

Explica que o motorista do mini-autocarro fora detido pela Polícia neste mesmo dia 18 de Fevereiro e esteve retido na esquadra do Kapalanga. Segundo informou a Polícia aos familiares, o motorista só sairia depois de assumir os óbitos. Mas infelizmente não foi o que aconteceu. Os familiares do motorista apenas apoiaram com os dois caixões e nada mais fizeram desde então.

Sem o conhecimento da família de Zacarias, o indivíduo foi libertado uma semana depois, mesmo não tendo assumido plenamente o óbito, ou seja, tendo apenas providenciado os caixões.

A família de Zacarias fez pressão, pois as duas crianças ainda encontravam-se hospitalizadas, uma no hospital do Kapalanga e outra no hospital Pediátrico David Bernardino, com várias fracturas e feridas exigindo curativos; além das outras despesas relacionadas com o óbito. A Polícia exarou autos de notificação para serem entregues a estes dois hospitais solicitando por relatórios médicos.

Foi o Zacarias pessoalmente que encarregou-se a levar as mesmas aos médicos destes hospitais. Os médicos não queriam elaborar os respectivos relatórios e estavam a dar muitas voltas. A família do motorista deixou a família de Zacarias a sua sorte, todas as promessas de apoio nenhuma delas se veio a concretizar. A família de Zacarias chegou mesmo a pensar em fazer justiça por mão própria, mas preferiram confiar na justiça das leis, na justiça do estado.

Até 7 de Dezembro de 2016 os serviços de Investigação Criminal insistiam em solicitar o Relatório médico do hospital Pediátrico onde tinha sido assistido e internado o menor António Albino de 1 ano de idade (Hospital Pediátrico David Bernardino). Quanto ao relatório médico de Delfina Nacubueta de 13 anos de idade (Hospital do Kapalanga) outra das duas crianças sobreviventes do acidente, só foi entregue em Outubro de 2016, desde Abril que vinha sendo solicitado.

Procuramos saber por que eram necessários estes relatórios. A Polícia apresenta duas versões pelo que podemos ouvir de Zacarias. Na solicitação, os serviços de Investigação Criminal dizem que precisam dos relatórios médicos “para efeitos de avaliação do dano corporal.” Mas à família dizem que é para os trâmites judiciais, para o processo seguir a tribunal, entretanto com o infractor que já estava detido, possivelmente solto pela Polícia.

Qualquer desfecho do caso, segundo nos conta o Zacarias que acabava de vir, no dia em que gravamos a entrevista da Direção de Investigação Criminal, está condicionado a apresentação do relatório médico que o Hospital Pediátrico não quer dar.

A tentativa de ir apresentar ao Comando de Divisão de Viana do único relatório médico em posse, não resultou, uma vez que a Polícia insiste que tem que haver os dois relatórios para se seguir com o caso. A família está atirada à sua sorte e não há mínima pressão das autoridade para com os médicos de formas a tornar célere o processo. Um simples relatório médico leva mais de 10 meses a ser dado. Os doutores estão com receio ou não querem passar o relatório.

Zacarias informa-nos, a 7 de Dezembro de 2016 que o rapaz ainda se encontrava internado no Hospital Pediatrico ao passo que a menina já tinha dado alta, mas ainda não consegue andar a vontade. As vítimas deixam filhos e viúvo. A família clama por justiça.

A insegurança rodoviária na cidade de Luanda é um problema sobejamente conhecido pelas autoridades. O relatório publicado pela Direcção Nacional da Aviação e Trânsito no ano 2013 mostra um saldo de 1766 mortes por atropelamento só no primeiro semestre deste ano. Em 2015, em apenas 10 meses “entre Janeiro e Outubro, a Polícia Nacional registou 3938” quase 4 mil casos.
“Segundo o Comando Geral da Polícia Nacional, para além dos 3938 atropelamentos só entre Janeiro e Outubro de 2015, o mesmo período registou um total de 3322 mortes nos diferentes tipos de acidentes que ocorrem nas estradas.” in Rede Angola, fevereiro de 2016.

“Os números preocupantes da DNVT exemplificam bem o quanto Avenidas como a 21 de Janeiro, Pedro de Castro Van-Dúnem “Loy”, Deolinda Rodrigues (Estrada de Catete), Estradas da Samba, da Boavista, Cacuaco, Ruas do Sanatório, dos Comandos e Via Expresso, se tornaram autênticas “auto-estradas da morte”.” Lia-se no jornal de Angola de 07 de Agosto de 2013.

Quais são as causas? Segundo o comissário da Polícia Carlos Salgueiro: “falta de campanhas de sensibilização dos condutores, utilização de meios de prevenção (como, por exemplo, os semáforos e as passagens aéreas “cuidadas, funcionais e bem visíveis”) e a educação rodoviária.” O Jornal de Angola prefere: “Dados da DNVT referem que os números alcançados pela sinistralidade rodoviária no país reflectem bem o estado de insegurança que muitos automobilistas e peões enfrentam todos os dias nas estradas e ruas. O excesso de velocidade, ultrapassagens irregulares, condução sob influência de álcool, uso de telefones durante a condução e a incorrecta travessia de peões são algumas das causas apontadas como factores de risco para o aumento da sinistralidade.”
[Fonte: Jornal de Angola e Rede Angola]

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s