A estrutura ideológica da opressão

Posted: February 18, 2017 in Luanda

UM CRIME ORGANIZADO ENTRE A POLÍCIA, A MÍDIA E O TRIBUNAL.

O crime organizado praticado por instituições do Estado, constituí um acordo estabelecido entre diferentes instituições afectas ao Estado, nomeadamente a polícia, a televisão e o tribunal, com fito de gerar mútuo benefício entre as partes. Portanto, quer as instituições envolvidas, quer em particular, os indivíduos que dirigem tais operações nessas instituições são os alvos dos respectivos benefícios ilícitos. Agora, podemos então chegar a coerente conclusão de que, tais indivíduos usam e se utilizam do nome e do poder de tais instituições para realizarem as suas práticas criminosas, sendo esses, salvaguardados juridicamente pelo tribunal, manipulados favoravelmente pela televisão e protegidos fisicamente pela polícia. O esquema, está assim articulado e pronto para dar início à barbaridade social. Portanto, é o que polícias, jornalistas e juízes fazem: zombar e a judiar de cidadãos comuns. A isso designamos Estrutura Ideológica de Opressão.

De acordo a essa lógica, uma determinada classe que goza de alguns privilégio e poder, usa e abusa o povo para os seus próprios benefícios. Assim, o poder em Angola, o MPLA, o partido de angolanos que se mantém no poder por via da força da mentira, do braço armado e da corrupção, para além das censura e repressão, ensinou e instituiu como regra para se chegar a um suposto poder, ser necessário satisfazer os olhos e os instintos animalescos ou sem racionalidade do patrão. Satisfazer o patrão pressupõe nada mais nada menos do que capangas porem a sua lógica administrativa e operacional em evidência, para além de não se oporem à essa. Seguir e fazer funcionar ou ainda na pior das hipóteses, se omitir à essa máquina é crucial para a dita ascensão social, de modos que aqui dá-se “início” ao intercâmbio ou à relação político criminosa senão comercial entre a polícia e a televisão. O policial, ascende liderando operações que tenham como desfecho algum sucesso. Sucesso é a demonstração pública de que a polícia está de facto a trabalhar e, quem pode afamar, exacerbar, ostentar, promover e mentir sobre esse suposto serviço público da polícia, é a Televisão Pública de Angola. É nesse contexto que se inaugura o designado programa Segurança Pública, do recém famoso jornalista Alexandre Cose.

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O “recém famoso” apresentador, Alexandre Cose

Nessa lógica, o policial cria a operação que, quanto mais escandalosa e agressiva ou impactante for, melhor para o jornalista, para o programa desse e para si próprio. Salve-se que nas Forças Armadas e na Polícia, os comandantes, comissários e afins, demandam por casos difíceis ou apenas polémicos. É daí que nasce a sua fama, o reconhecimento e a promoção, ainda que manipulados os factos. Então, nessa criação, o policial elege como ouvimos na prisão, quem será o seu preso ou os seus presos. Ser preso de um polícia no mundo do crime organizado do Estado, significa dizer que o seu destino enquanto detido ou recluso, passará essencialmente pelo crivo corrupto e psicopático do indivíduo que se fez seu polícia, para além de servir-lhe como álibi para aparecer publicamente como capaz e competente. Esse cidadão será a manchete do programa daquele jornalista, onde convidam alguns especialistas ingénuos do ponto de vista do domínio da realidade vivida e, analisam de acordo a realidade narrada, culminando indutivamente em comentários favoráveis e que inevitavelmente sustentam o papel e a bem-aventurança da polícia ou daquele polícia. Esse cidadão a quem se elegeu como preso do polícia, fará a audiência máxima do programa se a tempo não corromper agradavelmente o então polícia. Assim, se a proposta do recluso for inferior ou menos atraente à pré-conhecida determinação do tribunal ou ainda se esse refutar essa possibilidade tal como o autor, ele é conduzido até à esfera mais alta da arrogância estatal, como se um caso de “desacato a autoridade” desse direito a Televisão dentro do tribunal e, mais do que isso, ao estampamento da imagem do acusado. É justamente por isso que os polícias forjam provas, pois quanto mais acusações pesarem sobre o “o seu preso”, sabendo previamente a postura do tribunal, mais ganham com a sentença do intérprete juiz. Então, o “preso do polícia” tem que ser o caso mais sonante da operação por ele liderada e, foi exatamente assim que procedeu o agente da Polícia Nacional, Euler Matari, contra o nosso autor. Assim, o polícia Euler Matari doa audiência ao programa televisivo Insegurança Pública, ao jornalista Alexandre Cose e, esse ressarce o polícia com os seus protagonismo e visibilidade em rede pública. Eles permutam um falso mérito, uma falsa competência, utilizando o cidadão comum como elevador para “ascenderem” socialmente, o que nos leva a crer que tais indivíduos padecem de algum desvio de carácter ou mesmo psicopatia, se entendemos a psicopatia como sendo a ausência do sentimento de culpa e de arrependimento, o que alguns psiquiatras, têm chamado de deformação moral.

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Assim, invariavelmente os jornalistaszinhos do Tempo Perdido em Angola, vulgo TPA, os convidam para explicar como conseguiram “controlar, organizar” aquela situação determinada e, então, elogios incessantes controlam o discurso jornalístico. Nós mesmos nos arrepiamos até a alma, ao vermos o chamado defensor público e a juíza da causa, uma tal fulana de Almeida, de quem, por ironia, ignoramos a sua identidade nominal, elogiarem a prestação da Polícia Nacional para restabelecer a ordem pública. Agora, o polícia “é visto” pelo poder, como competente e capaz, o jornalista como atrativo pelo conteúdo do seu programa e a forma como reporta as matérias e, o cidadão como infractor. Ambos “ganham” quer dos seus chefes alguma admiração, quer do povo algum índice de lembrança e visibilidade. Agora eles emergem na sociedade vazia e leiga, como os homens, os jovens de que a sociedade realmente precisa. Uma designada teoria da comunicação, conhecida como teoria da bala mágica ou hipodérmica, hoje absoleta pela sua simplicidade análitica, ainda nos pode explicar alguma coisa sobre isso, sugerindo que comunicar em massa determinada informação, os indíviduos entenderão e reagirão de igual modo à mensagem. Reagindo de igual modo, para os telespectadores, o cidadão aduzido à público será um simples contraventor e a polícia, a ordem. Portanto, tentando massificar a ideia de que o cidadão Mário Lunga e outro procederam criminosamente, o crime organizado visa deixar subliminarmente, a ideia de que a postura da polícia ainda que brusca, tem o seu respaldo jurídico, face a resistência dos cidadãos.

Essa é, portanto, a lógica de ascensão implantada pelo governo angolano, pelo que esses indivíduos, Euler e Cose, não assumiriam na nossa percepção e acepção de responsabilidade, a culpa toda. Euler Matari e Alexandre Cose, seriam apenas pequenas lêndeas penduradas por de cima de um crânio carente de higiene, com o couro cabeludo repleto de piolhos maiores que assolam esse corpo chamado Estado angolano. Por isso mesmo, diferentemente de alimentar algum ódio, o autor nutre especial e incomensurável agradecimento à esses concidadãos, por lho permitirem compreender na prática, a realidade de que sempre criticava, porém, de alguma forma, superficialmente. Irónica e incrivelmente, o cidadão que gera audiência a esse tipo de jornalismo é o próprio cidadão de que se usa para manchar a reputação e a honra, aquele por quem se usa como modelo a corrigir, modelo de erro e mau exemplo, como se fosse ele realmente o problema do país.

Políticos, polícias e fiscais, para ficarmos por aqui, que amanhecem e pernoitam a roubar vendedores ambulantes e zungueiras, agridem populares com bastões e/ou barras de ferro quase que à ordem do dia, corrompem cidadãos comuns nas ruas de Angola e, como o autor observou enquanto encarcerado, até no interior daquela prisão também o fazem sem qualquer vergonha na cara, pronunciam-se e dirigem-se rotineiramente de forma desrespeitosa e sem educação para os seus concidadãos, são insignificantes para o programa INSEGURANÇA PÚBLICA que, simplesmente ignora e faz um olhar silencio vingar diante do público, assim como insignificante também é para o tribunal, de modos que a conclusão a que chegamos, é que o referido programa e numa perspectiva mais ampla, o jornalismo que temos estado a citar, representando uma autêntica ofensa e insegurança para os angolanos, existe unicamente para promover a marca da Polícia Nacional que, carecendo de uma renovação, tem sofrido um rebranding, assim como existe não para informar com verdade o povo, para além de escamotear a realidade dos factos desfavoráveis e controversos ao papel da chamada ordem pública, como o polícia e o juiz procederem como bandidos.

O “segurança pública” é um programa que existe somente para servir a Polícia Nacional e vice-versa, pois não tem esse, outro propósito definido e fundamentado. Portanto, enquanto esse jornalismo permuta favores e um falso mérito com a polícia, o tribunal adentra nesse esquema delinquente como garantia de que a polícia irá vencer a causa. Ora, atentemo-nos que a polícia é um membro do corpo do Estado, um primo direito do tribunal e da televisão. Assim, o tribunal é a última reserva desse crime organizado. É lá onde se consuma o facto; é o golpe de misericórdia da máfia institucionalizada em Angola. Assim, a polícia forja provas no local do crime, a televisão cria o criminoso com a edição de vídeos e imagens e, o tribunal criando diferentes fantoches, escrivão, defensor público, juízes, lei etc., julga de acordo o interesse do Estado que para o caso concreto, tal interesse é mostrar que a polícia se renovou e está a funcionar.

Dentro desse interesse, a estratégia é tomar como exemplo de erro o cidadão comum, em detrimento de um “exemplo certo ou bom” da polícia. Na instância do julgamento ou se quisermos, após a sentença, o policial ganha a causa e com isso, o dinheiro pago pelo réu. A pena se converte em multa ou dinheiro para o caso de réus primários e esse é destinado parte para o lesado, parte para o tribunal. Queremos crer, pois não reservamos nenhuma dúvida de que o mesmo dinheiro angariado pelo lesado, é talhado em diferentes porções e mãos, pois há também a esse nível, troca de favores e manifesta amizade. Foi pelo menos o que nos ficou claro diante da peça assistida. É a isso que entendemos considerar como crime organizado. A força, a mídia e a lei, montados e articulados num esquema de opressão social, ou seja, intolerância, manipulação e sentença, como uma monstruosa estrutura opressora assente em Angola.

Portanto, não se tratando de nenhuma novidade para nós e, porque até recentemente testemunhamos com o mediático caso 15+ duas, a manipulação do Estado angolano, fica-nos fácil reconhecer tal Estrutura opressora. O Estado foi outra vez bandido. Polícias forjam provas no suposto local do crime, antes agridem o autor. Revidando verbalmente a agressão, a televisão na pessoa de um cinegrafista robô, filmou e editou o vídeo com destaque à reação do autor. O tribunal recusou-se a assistir o vídeo, alegando a juíza não ser obrigatório. Em seguida ignora as contradições da acusação e julga de acordo à mera vontade de verdade da polícia.

O suposto defensor público disponibilizado pelo Estado “democrático de direito”, elabora uma retórica falaciosa e interpreta uma defesa para apresentar à uma das salas de teatro do país, por isso mesmo cruzando os braços em momentos cruciais do julgamento ante uma longa avenida de contradições, tal como os juízes, desde incongruências entre os depoimentos dos diferentes acusadores, o despapel do escrivão de levantar-se para convencer o juiz a permitir a filmagem dos arguidos, para além de não recorrer à incoerência do juiz, tão pouco amparar o pedido do constituinte de os juízes assistirem o vídeo na íntegra e, ainda permitir que apenas os “seus constituintes” fossem filmados, quando o próprio juiz não permitiu que fosse igualmente filmado. Ou seja, o juiz não pôde ser filmado porque não quis, já os arguidos puderam mesmo não querendo. Ele, o defensor, ignorou por completo, não apenas o direito à imagem dos seus constituintes, mas a dita e tão aclamada igualdade de direitos diante da lei. Em cadeia televisiva, agora para a rede pública, a televisão suprimiu quase que na íntegra o artigo 79º do Código Civil (Direito à imagem1) e justificou profunda e mentirosamente o estampamento do cidadão aduzido à público. O cidadão é vestido de diabo e o polícia o deus da operação; um adepto da ordem e da justiça. Assim, alguns filhos tendem a se envergonhar dos seus pais, outros a adorá-los. É o típico filme hollywoodiano do bandido e o polícia, agora na versão angolana do imitar erradadamente.

 Mário Lunga

  1. 1a) O retrato de uma pessoa não pode ser exposto, reproduzido ou lançado no comércio sem o consentimento dela, depois da morte da pessoa retratada, a autorização compete às pessoas designadas no número 2 do 71, segundo a ordem nele indicada.

  1. Não é necessário o consentimento da pessoa retratada quando assim o justifiquem a sua notoriedade, o cargo que desempenhe, exigências de polícia ou de justiça, finalidades científicas, didácticas ou quando a reprodução da imagem vier enquadrada na de lugares públicos, ou na de factos de interesse público ou que hajam decorrido publicamente.ou culturais. (O negrito no texto, foi o excerto do respectivo artigo aduzido à público para justificar o direito da polícia para apresentar o cidadão com o rosto descoberto).

  1. O retrato não pode, porém, ser reproduzido, exposto ou lançado no comércio se do facto resultar prejuízo para a honra, reputação ou simples decoro da pessoa retratada. (CÓDIGO CIVIL ANGOLANO, Art. 79).

Comments
  1. Ju Jaleco says:

    Um bom texto (só embirro com o termo “mídia”)… A minha tristeza é esta: já não viverei o suficiente para ver um “mundo” melhor – na minha terra e não só!

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