Centenas de Odoricos

Posted: July 29, 2017 in Luanda

Por Sachondel Joffre

O que acontece em Angola é de facto a vida a imitar a ficção. Um exemplo recente e público foi o episódio do comício no Namibe, em que o “camarada” Caíto, Governador e Primeiro Secretário do MPLA, resolveu “luvualar” dizendo que já havia água no bairro 5 de Abril (“a água chegou no 5 de Abril”) e foi contestado pela população que gritou em uníssono: “Naaaaãooooo!”.

O “camarada” Caíto, coitado, não está habituado a populares contestatários. Isso é confuso para o seu espírito primeiramente formatado no “afro-stalinismo”, e depois reformatado para acreditar piamente na “clarividência” do Camarada Presidente, o Arquitecto da Paz, quando este defende os “incontestáveis benefícios” da “acumulação primitiva de capital” pelos “empreendedores do MPLA”.

Naquele momento, embaraçado assim perante os seus pares, seus assessores e e subordinados, notou-se no “camarada” Caíto uma certa revolta. Ponho-me a imaginar o que ia na sua cabeça: “Mas que indisciplina é esta? Isto é um acto de sabotagem! O responsável por isso tem que ser identificado, neutralizado e devidamente punido”. Isso é que Caíto pensa. Pensa, mas não pode dizer. Não ali. Não à frente de todos aqueles microfones e câmaras. 

Nitidamente atrapalhado e surpreso, o “Camarada” Caíto, hesita e saí com esta: ” A Água não chegou? …Não chegou, mas vai chegar! A água vai chegar no 5 de Abril!”. Mas a mini-rebelião popular continua. A primeira contestação, o primeiro “não” não foram um acidente. A população está visivelmente cansada de proclamações vãs e promessas imprecisas. É um daqueles momentos de coragem que nascem mais do esgotamento do que da esperança.

Coisa rara, a contestação popular a um governador de províncial em Angola. Inédito, vê-lo forçado a dar explicações, ainda por cima, em pleno comício. Constantemente interrompido pelo burburinho, Caíto admite que é “preciso explicar” e lá faz a sua arenga sobre o porquê da não haver água e tão-pouco luz eléctrica, e conclui assim: “Na primeira quinzena de Agosto vamos ultrapassar os problemas que temos com energia. vamos pedir aos camaradas para terem paciência, (…) por isso não fiquem com essa cara de que o MPLA não está a resolver os problemas do povo. O MPLA está a resolver os problemas , sim senhora”.

A conclusão de Caíto, embora desconcertante, é bem ilustrativa da como funciona a doutrina da “clarividência governativa” do MPLA. Para o MPLA (e para “camarada” Caíto ), o povo não se pode mostrar insatisfeito. Isso é sinal de ingratidão. Porque aquilo que o MPLA não fez em 40 anos, vai seguramente fazer nos próximos 15 dias, ou mais tardar na primeira quinzena de Agosto. Por isso, o povo tem que estar sempre agradecido ao MPLA. Em resumo: O MPLA resolve sempre os problemas do povo. Quando a realidade desmente isso, é a realidade que está errada. 

Eu, de repente, assim de “repentemente”, lembrei-me do Odorico Paraguaçu. É que Angola parece uma invocação amplificada de Sucupira, a cidade fictícia, situada algures no sertão brasileiro na novela “O Bem-Amado”. A diferença é que em Sucupira havia, acima de todos, um só prefeito: o Odorico, e um só cangaceiro, (que às vezes também era jagunço contratado): o Zeca “Diabo”. Já em Angola há umas dezenas de Odoricos ( como este “camarada Caíto”) e, acima deles, meia dúzia de Zecas “Diabos”. E isso já não é matéria de novela. É um filme de terror.

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