Hospital Central do Lubango: Uma ruína de oito pisos

Posted: January 20, 2018 in Luanda
Hospital Central do Lubango (Morais Silva)

Hospital Central do Lubango (foto de Morais Silva)

No dia 9 de Janeiro de 2018, o Director Provincial da Saúde da Huíla, Eleutério Hivilikwa, falou à imprensa, anunciando que caso o Hospital Central do Lubango (HCL) não tenha uma intervenção do governo imediatamente, corre o risco de fechar em 2 anos.

A Equipa da Central Angola 7311 fez ontem, dia 19 de Janeiro, uma visita ao HCL para constatar in loco as razões que levaram o Director Provincial da Saúde naquela província a proferir tão grave sentença. Aos factos:

Eram 10 horas e 51 minutos quando chegámos ao local. Na entrada do banco de urgência, um agente da polícia nacional sentado e um segurança de uma empresa privada estavam à porta controlando e interrogando quem chegue ao banco de urgências, sabendo o que iria lá fazer. Enquanto isso, os dois iam conversando sobre a situação política e económica do país, o tema em debate sendo a performance dos deputados na Assembleia Nacional (AN) no dia 18 de Janeiro.

Já dentro do banco de urgências: escuridão dentro do hospital, pessoas no banco de espera mas a catalogadora de serviço não tinha como registar os pacientes que entravam porque não tinha luz eléctrica. Avançando pelo corredor, sala de trabalho fechada, vemos uma enfermeira caminhando para a sala de observação masculina usando a lanterna do próprio telefone para fazer a medicação do dia a um dos pacientes em observação. Outros pacientes, enquanto aguardam pelo atendimento médico, vão utilizando seus telemóveis para ajudar a iluminar o espaço. De outro lado, onde funciona a ala feminina de observações, pelo corredor, pacientes e familiares a conversarem, no laboratório de análises clínicas do banco de urgências, muito silêncio. Dois técnicos trocam conversas: Bom dia? É possível fazer análises hoje? Perguntámos! – Não tem luz. Hoje é mesmo só dia de se olhar nas caras, sem luz não se faz nada por aqui – respondeu um dos técnicos. Fomos caminhando pelo corredor, bloco operatório fechado, sem qualquer pessoa para dar alguma satisfação, chegamos até a sala de radiologia, do lado esquerdo pacientes a espera, do lado frontal do vidro, duas jovens conversando aparentemente sem muito trabalho.

Bom dia? É possível tirar raio-X hoje?

Não, não tem luz. Não vez que essas pessoas todas estão a espera?

Está bem. Obrigado pela informação!

Estávamos já do lado das consultas externas, um vasto corredor iluminado pela luz solar, fruto do grande projecto arquitetónico do HCL construído há muitos anos.

Encontrámos uma enfermeira aceitou conversar connosco, mas em anonimato:

CA7311: Há quanto tempo estão sem luz?

Enfermeira: A Luz foi por volta das 8 horas da manhã.

CA7311: São agora 11 horas a luz não veio até agora, como é que estão a trabalhar?

Enfermeira: Aqui hoje estamos a nos olhar nas caras, está quase tudo escuro e para além da luz dos corredores não estamos a trabalhar como deveríamos. Assim que as pessoas se aperceberam que não tem luz, ligaram para a Rádio Mais, e eles vieram aqui, mas o director fugiu.

CA7311: Como assim? Porquê que o director do hospital ia fugir por isso?

Enfermeira: A luz da rede foi, era suposto o gerador estar ligado, mas isso não aconteceu, assim se lhe perguntarem ele não vai conseguir responder.

CA7311: O Director Provincial da Saúde disse que esse hospital corre o risco de fechar, a senhora concorda com isso?

Enfermeira: Até já devia fechar. Onde é que já se viu um hospital central como esse que salva a região sul do país, sem paracetamol, sem dipirona e sem luz? Há muito tempo que esse hospital não é levado à sério pelo governo. Não tem nada de nada. Os pacientes são sempre obrigados a comprar a medicação porque aqui não tem nada.

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Hospital Central do Lubango às escuras

CA7311: Assim, sem luz, como fica o bloco operatório?

Enfermeira: O bloco hoje não está a trabalhar por causa mesmo disso. Aqui tá tudo mal mesmo. Isso já não dá mais pra esconder.

CA7311: Passamos pela área VIP, vimos que estão a cobrar 3 mil Kwanzas por consulta. O dinheiro cobrado ali não ajuda o hospital?

Enfermeira: Só posso te dizer que o dinheiro vai todo para os bolsos deles. Não se justifica tanto dinheiro que se cobra lá, mas o hospital tem falta de tudo.

CA7311: Passamos pela Radiologia, e disseram-nos que não estão a atender por falta de luz. Quando há luz atendem normalmente?

Enfermeira: No raio-X? (risos), quando digo que está tudo mal, está mal. Aqui já não dão chapa, tem que ter telefone para fotografar o raio-x. A máquina de TAC anda mal há muito tempo. Lembro-me que há anos, um jovem fotógrafo muito conhecido teve um acidente e precisava fazer TAC, mas o hospital não tinha como. Eles decidiram ir pra Namíbia, mas o hospital estava a negar-se em assinar a guia de marcha para não descobrirem na Namíbia que aqui não tem TAC. Felizmente conseguiram fazer um grande braço de ferro e o jovem foi levado. Daqui a nada vão descobrir também que aqui não tem chapa de raio-X. A política que se faz aqui no país não é política e a da nossa província então é uma lástima. Vamos todos orar pra não ficarmos doentes porque, estão a nos matar aos poucos. Tenho que ir agora porque já está na minha hora, desejaria poder conversar mais convosco.

CA7311: Obrigada pelo seu tempo.

HCL às escuras 02

Um dos corredores do Hospital, iluminado por luz natural

Continuámos nosso périplo pelo interior do hospital e decidimos ir saber como estão os pacientes na UTI. Subimos pelas escadas, escuras, encontramos um segurança que não nos permitiu entrar para sabermos como estavam os pacientes naquele momento de escuridão.

Com as chuvas que o Lubango enfrenta essa semana, foi possível ver a infiltração de água em algumas parte do interior do hospital, principalmente nos pisos da parte posterior do hospital.

Regressámos por onde entramos, pelo banco de urgência. Duas catalogadoras que controlavam o livro de ponto do hospital estavam sentadas a conversar.

Bom dia? Aqui está sem luz, não tem um livro de reclamação para registarmos isso como utentes? – indagámos.

Aqui já cancelaram isso de livro de reclamação há muito tempo, vão só se cansar. Se tiverem uma coisa a reclamar, vão directamente ao director do hospital – responderam.

Mas o director do hospital não está como fica assim?

Então não temos nada a fazer.

Dizer que o HCL, que é o maior hospital da região sul do país, há anos que não tem uma reabilitação sequer, tendo sido a última delas, segundo o director provincial da saúde, nada mais e nada menos do que um simples pintar de paredes.

O hospital tem médicos russos, cubanos e angolanos. Os primeiros estão sem salários há meses e já escreveram uma carta para a ministra da saúde para reclamar da situação, ameaçaram abandonar o país se a situação prevalecer.

O Hospital tem sido apoiado por médicos estagiários que mesmo tendo assinado um contrato com a faculdade de medicina da Universidade Mandume ya Ndemufayo relativamente aos subsídios de estágio, nunca viram tais subsídios, aguentam o hospital patrioticamente até em tempos de férias.

O hospital tem 8 andares e nenhum elevador funciona, os funcionários transportam os pacientes pelas macas até ao 8º andar, subindo as escadas. Não tem esterilização no hospital e o bloco operatório é improvisado com pouca luz, segundo Eleutério Hivilikwa.

A Central Angola 7311, vai continuar acompanhar o hospital em tantas visitas quantas forem necessárias para ver o desfecho de um hospital de referência na região sul de Angola.

SALVE HOSPITAL CENTRAL DO LUBANGO

Comments
  1. Ju Jaleco says:

    Que triste fiquei! Várias vezes visitei a minha mãe nesse hospital

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