Cambulo (Lunda-Norte): a miséria de um município rico em diamantes

Posted: April 13, 2018 in Luanda
Nzagi 01

A vila diamantífera do Nzagi

A vila de Nzagi, sede do município de Cambulo, província da Lunda-Norte, dista mais ou menos 90 quilómetros da cidade do Dundo, a capital da província. É constituída por uma população mista entre Cacongos, Kokwes e Balubas, o que enriquece a sua diversidade cultural.

As infraestruturas, tal como as da cidade do Dundo, são maioritariamente construídas pelos Belgas, formando uma vila com mais ou menos 500 habitações. Hoje, essas habitações foram predominantemente ocupadas por estrangeiros que se dedicam a compra e venda de diamantes com denominações de “BOSS CICRANO” ou “BOSS BELTRANO”.

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Boss Malek, “Milionário”, negociante de diamantes

Ironicamente, sendo um município com terra fértil para a agricultura, verifica-se uma grande carência de produtos do campo locais, pelo facto das pessoas dedicarem-se mais ao garimpo e à exploração de diamantes, o que eleva grandemente o custo de vida desse município. É frequente cumprimentar alguém, sobretudo pessoas do sexo feminino, e ouvir a seguinte resposta: “estou bem, é só a fome!”.

O município não tem eletricidade e nem água potável públicas, dependendo-se de geradores domésticos (aqueles que tenham condições para mantê-los) e cisternas de água que são vendidas a retalho para cada residência. Algumas senhoras vendem bacias de água na zunga a 200 kwanzas. Os homens, por sua vez, zungam com bidons de 25 litros, carregando-os em bicicletas. Engenhosos, encontraram um jeito que lhes permite carregar 5 a 6 bidons (150 litros) numa única bicicleta.

 

As carências são visíveis em todos os domínios e geradoras de interessantes paradoxos sociais. Por exemplo: por falta de efetivos, a polícia recorre à membros da AMOTRANG (Associaçao de Motoqueiros e Transportadores de Angola) para, munidos de um colete verde, exercerem a missão de regulação de trânsito, com poderes discricionários para parar, multar e prender automobilistas, o que fazem amiúde, incluindo aos seus próprios colegas motoqueiros.

Existem seis escolas de ensino primário, três do primeiro ciclo e uma do segundo ciclo (ensino médio), tendo a totalidade dos professores aderido à greve em curso convocada pelo Sinprof à nível nacional.

Em Maio de 2017, inaugurou-se um “Núcleo Universitário” afeto à Universidade Lueji A’Nkonde, que ocupa as instalações de uma das escolas do primeiro ciclo, funcionando apenas no período pós-laboral e onde apenas um curso é lecionado: o de pedagogia, na especialidade de ensino primário. Sem embargo, as condições são lastimáveis e a qualidade deplorável, o que faz com que as pessoas não acreditem no processo de ensino, sendo o curso parcamente frequentado.

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Escola Primária e do I ciclo do Secundário Deolinda Rodrigues de manhã e Pólo Universitário Lueji A’Nkonde no período pós-laboral

Não há espaços de lazer e como consequência, a juventude encontra refúgio no álcool e na promiscuidade. A saúde é uma miragem, existe um Hospital municipal mas sem condições humanas ou técnicas: não há medicamentos, não há luvas e não há seringas. As amostras laboratoriais por exemplo, são estendidas ao sol por falta de energia no Hospital para que se tenha o resultado do plasmódio (e isso leva tempo!). Quando alguém morre, os familiares tem obrigação de comprar combustível para sustentar o gerador do hospital enquanto o familiar estiver na morgue.

Nzagi 06 Hospital municipal do Cambulo Dr. José Eduardo Carmo Nelumba

Hospital Municipal Dr. José Eduardo Carmo Nelumba

A administração municipal carece de condições básicas. Para tratar de documentos elementares como Assento de Nascimento, Bilhete de Identidade, Registo Criminal ou Cartão de Contribuinte, as pessoas têm que deslocar-se para o Dundo, o que condiciona de forma incapacitante a vida dos munícipes.

Em suma, mais um canto rico de Angola onde a miséria fez moradia e reclama titularidade por usucapião. Não pode depois espantar quando movimentos independentistas ganham simpatias e aderentes. É preciso repensar urgentemente o país sob pena de se comprometer a sua integridade.

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