Archive for the ‘A Voz do Povo’ Category

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1 ano depois da prisão dos ativistas, achamos ser este o dia adequado para assinalar as perseguições e injustiças e de reclamarmos a liberdade de expressão designada na nossa constituição.

O caso dos 17 despertou a atenção de grande parte dos Angolanos e da comunidade internacional mas estes e outros ativistas continuam presos ou limitados na sua liberdade. Porque precisamos de todos os que querem contribuir para uma Angola melhor, livres de o poderem fazer, porque manifestar não é guerra, porque não há paz sem justiça e igualdade, porque acreditamos que juntos vamos virar uma página na história do nosso país, apelamos a que, em Angola e na diáspora, cada um, na sua língua, na sua localidade e na sua maneira, se associe.

Dia 20, porque todos somos reféns, vamos manifestar a nossa solidariedade com os presos e reclamar a nossa “Libertação” prometida há 40 anos! Como?

  • Espalhando a imagem anexa.
  • Utilizando uma peça de roupa branca.
  • Dando opinião nas redes. Com texto ou imagens.
  • Imprimindo este panfleto e/ou este cartaz.
  • Organizando uma ou participando numa das concentrações em:

Dia 18
Bruxelas – Parc du Cinquantenaire, Fête de La Musique – 23h

Dia 19
Lobito – Junto a rotunda da zona alta da lixeira – 18h

Dia 20
Luanda – Sambizanga – Rotunda da Boavista – 12h
Luanda – Cacuaco – Paragem da Vila junto ao Tanque – 12h
Luanda – Viana – Junto ao Alimenta Angola da Estalagem – 12h
Luanda – Belas – Rotunda do Camana – 12h
Lisboa – Rossio – 19h
Lobito – Rotunda do Camioneiro, Zona Alta, 18h
São Paulo – Hip Hop pela Liberdade, Praça Rooselvelt, Centro SP, 19h

Dia 21
Paris – Parvis de L´Eglise Saint Bernard, 18éme – 21h
Lobito – Rotunda do Camioneiro, Zona Alta, 18h

Dia 24
Joanesburgo – Consulado de Angola – 10h

Dia 26
Luanda – Partida de futebol no campo da Igreja São Domingos – 15h

Gritando ”Queremos Liberdade!”

Mais sugestões e informações em:
Todo o material gráfico aqui:

Mais info sobre o caso em:

Amnesty

#liberdadeja #angola17



20th June. Liberation Day.

1 year after the activists’ detention, we trust this is the best day to expose persecutions, injustices and to reclaim our right to freedom of expression, association and assembly as stated in our constitution

The case of the 17 activists generated great attention from a significant number of Angolans and the international community, but these and other activists are still detained or facing constraints to their freedom. Because we need everyone that wants to contribute for one better Angola to be free to do it, because to do a peaceful demonstration does not lead do war, because there isn’t peace without justice and equality, because we believe that together we can turn this page in the history of our country, we call upon each of you, in Angola and in the diaspora, in your language, in your city and in your own way, to join us.

20th June, because we are all hostages of the atrocities being committed by this government, we will demonstrate our solidarity with the political prisoners and reclaim our Liberation, as it was promised 40 years ago! How?

  • Share the event image
  • Wear a white piece of clothing
  • Post your opinion about the political imprisonments on social media. With texts or images.
  • Organize one or participate in one of the following demonstrations:

18 June
Brussels – Parc du Cinquantenaire, Fête de La Musique, 11PM

19 June
Lobito – In the roundabout in “zona alta da lixeira” – 6PM
Luanda – Football match in the football field of church São Domingos – 3PM

20 June
Luanda – Sambizanga – Boavista’s roundabout  – 12PM
Luanda – Cacuaco – Paragem da Vila junto ao Tanque – 12PM
Luanda – Viana – Alimenta Angola da Estalagem – 12PM
Luanda – Belas – Camana’s roundabout – 12PM
Lisbon – Rossio – 7PM

21 June
Paris  – Parvis de L’Église Saint Bernard, 18éme – 9PM

24 June
Johannesburg – In front of the Angola Consulate – 10AM

26 June
Luanda – Football match in the football field of Church São Domingos – 3PM

Shouting “We want freedom”

Or following one of the many suggestions listed here: http://www.centralangola7311.net or facebook.com/centralangola7311

All graphic material here:

Click on the Amnesty icon for more info about the case:

Amnesty

#liberdadeja #angola17

 

 

 

 

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Tomei contato esta manhã (através da net) com a notícia que dava conta que o ativista e companheiro Manuel Nito Alves foi ontem condenado a 6 meses de prisão, fruto de um julgamento sumário por “ter cometido crime de injúria contra o tribunal” e o MP pede que eu seja igualmente julgado sumariamente por considerar “a [minha] ausência [na segunda-feira] como sendo um desrespeito ao Tribunal de Luanda”.

Não estou surpreso com o intento e era de se esperar. Infelizmente, e talvez por muitos longos anos se nada se fizer, a nossa ‘justiça continuará a ser conveniente ao invés de consequente.’

Eu informei aos meus advogados as razões que me levariam a não comparecer em tribunal a partir de segunda-feira 08/02, razões igualmente de conhecimento do MP e do tribunal de Luanda. Assoberba-me entretanto, o facto do MP as considerar como desrespeito ao tribunal, a menos que se ache que no nosso país alguns são seres humanos e outros mero gado, ou que até crianças não sejam motivo de preocupação de um estado.

Vou usar o espaço público, uma vez que talvez não me dêm tanto tempo assim em tribunal para expor todas as vicissitudes que tenho passado no que toca a penúria financeira. Tenho apenas dois dias para apresentar a minha justificação ao tribunal, tribunal ao qual decidi não comparecer até ir ao banco e por hoje (09-02-2016) ser feríado, os serviços prisionais não me vieram pegar. Até ao momento da escritura desta nota (11h00) o meu reeducador ainda não chegou, para contar a epopeia que tenho passado, eu e a minha família, desde a minha detenção a 20 de junho de 2015. Nunca quis tornar isso público, mas se o tribunal quer usar tudo e nada como arma, convém dar voz a justiça dos factos, embora a dos tribunais se tenha tornado conveniente.

De 20 de junho a setembro de 2015

Depois da nossa detenção, as primeiras preocupações apresentadas aos procuradores, serviços prisionais e os deputados quando nos foram visitar tinham que ver com a cedência dos nossos documentos, especialmente os multi-caixas uma vez que deixávamos as nossas famílias financeiramente desamparadas. Insistimos nisso várias vezes.

No meu caso, na minha segunda audição em finais de julho tive a garantia verbal do procurador Luciano Cachaka (testemunhada pelo instrutor processual Pedro João e pelas advogadas Marisa e Isabel) que naquele mesmo dia (30 de julho de 2015) “teria a minha carteira e outros pertences que não constituem matéria de crime”, especialmente os multi-caixas. Postos na 29ª Esquadra, antiga DNIC, onde estão arrecadados os nossos pertences, nada aconteceu.

Na terceira audição, a 14 de setembro de 2015, voltei a cobrar ao procurador a promessa da carteira que me havia feito, dizendo que nada me fora entregue até então. Enfureceu-se sobremaneira com o instrutor Pedro João jurando que já havia autorizado POR ESCRITO que me dessem a carteira de documentos, “está aqui o Pedro João, eu ordenei por escrito, por escrito e não foi de forma verbal que as vezes deixa dúvida, foi por escrito.” Isso foi testemunhado pelo advogado Emanuel e esteve também para audição neste dia, o Nito Alves, mas na sala de espera com o qual partilhei a situação.

Neste mesmo dia o instrutor Pedro João auxiliado pelo inspetor David deram-me o telefone para ligar a um familiar para que no dia seguinte se deslocasse a DNIC para buscar a carteira (tudo isso foi testemunhado por Nito Alves). O meu irmão foi para lá (29ª Esquadra, ex-DNIC) três vezes, nada recebeu.

De outubro de 2015 à data atual

Esgotadas as esperanças de ter a carteira de documentos por meio do MP, decidi redigir através dos serviços prisionais, uma procuração no inicio de outubro de 2015, onde delegava os meus poderes forenses a meu irmão.

Procuracao 1

Na primeira vez, os serviços notariais exigiram o meu bilhete original, informados que estava retido com os demais documentos pessoais no SIC, orientaram que tal informação constasse na procuração. Voltou-se aos serviços prisionais e inseriu-se a referida nota. De volta ao notário para reconhecer a procuração, disseram: “esta nota não significa nada, tem de ter mesmo o bilhete original”. Já devem estar a imaginar a minha fúria. O notário onde tudo isso estava a acontecer é o de Cacuaco.

Procuracao 2

Foi assim que redigi através dos meus advogados, em novembro de 2015, uma carta ao meritíssimo juiz da causa Januário Domingos a solicitar o Bilhete de Identidade nem que fosse a titulo devolutivo e permissão de saída para a delegação provincial de educação para cadastro de professor. Esse pedido viria a ser atendido apenas a 16 de dezembro de 2015 e a notificação do despacho só me chegaria em mãos a 11 de janeiro de 2016 depois de retomado o julgamento. Sendo a única carta até hoje que teve despacho.

Resposta Januario

Entretanto, a 16 dezembro voltei a redigir uma nova carta ao juiz, eu pessoalmente (à mão) com 4 solicitações, pois já sabia da nova medida de coação. As solicitações incluíam a permissão para ir fazer o cadastro de professores que começara em novembro de 2015, ida à repartição de educação e à minha escola na Funda e, especialmente a cedência da carteira de documentos com os multi-caixas. Nenhuma resposta a isso tudo até hoje.

Carta 16-12-2015

Ainda em dezembro de 2015 (28/12) fiz nova carta sob orientação do meu reeducador para o procurador junto ao SIC a solicitar a carteira e especialmente os multi-caixas, pois a penúria financeira já se fazia sentir. Aliás, o único dinheiro que nos manteve de dezembro de 2015 a janeiro passado foram as contribuições de natal que os nossos manos organizaram (tendo beneficiado de 35.000,00kz da contribuição) mais 25.000,00kz que o meu advogado Luís do Nascimento deu-me como boas festas. Os meus manos Timajó, Emilio “Kim”, Noé, um oficial da polícia (dos que me têm cuidado), Silva e outros manos e manas deram-me ao todo cerca de 130 dólares, no câmbio de junho de 2015.

Uma semana depois de 28 de dezembro, i.e. na primeira quinzena de janeiro de 2016, redigimos (eu e o reeducador) a mesma carta que redigira ao procurador junto ao SIC, ao juiz Januário. Até agora também não obtive resposta nenhuma.

No dia 13 de janeiro de 2016, depois de receber o despacho do juiz em resposta a minha carta de novembro de 2015, deslocamo-nos acompanhado do reeducador, no carro dos serviços prisionais ao SIC para buscar o BI. Postos lá, disseram que o BI já tinha ido ao tribunal no dia 12, dia anterior. Má fé do tribunal não ter feito a entrega neste dia o meu BI uma vez que ficamos lá mais de 4 horas sem haver sessão alguma.

Fomos do SIC ao Benfica buscar o BI. Tinha a garantia de também ir a Delegação Provincial para correr atrás do prejuízo do cadastro, mas depois de recebermos o BI, o motorista queixou-se da falta de gasolina. Que a que havia era suficiente apenas para me levar de volta a casa e assim o caso delegação ficou esquecido. Nunca mais voltou o carro dos serviços para me levar.

Mbanza BI Borrado Post

BI de Mbanza, com locks e sem documento da cultura.

Com o bilhete em mãos ganhei um pouco de ânimo pois a procuração já poderia andar. Encaminhei o tão solicitado BI ao meu irmão. Posto no cartório, “a procuração deve ter dois carimbos! Um do estabelecimento e outro da reeducação” (O que me devora é que eles nunca previnem os supostos erros. Quando pediram para constar a nota da retenção do BI no SIC não falaram dos dois carimbos por que? Estão sempre a dar trabalho estúpido e nunca são responsabilizados. Se por exemplo vier a ter os dois carimbos, irão dar a desculpa de uma data qualquer, de uma assinatura que não casa, de um nome que não devia estar, ou estar, enfim! Tudo só para maçar o pobre cidadão).

Essa notícia fez mais do que enfurecer-me. Dois carimbos!!! Vejam que a procuração tem o carimbo e assinatura da diretora do Hospital Prisão de São Paulo! O meu irmão, ainda assim moveu-se para o Hospital Cadeia S. Paulo para saber disso. A chefe Sónia, chefe da reeducação gentilmente informou que o estabelecimento usa um único carimbo, além do mais a reeducação não possui carimbo próprio.

Incansável, o meu irmão foi tentar a sorte em outro notário neste mesmo dia, nos Combatentes. Estes foram mais extremistas “a procuração não deve ser feita pelos serviços prisionais, mas por nós administração pública. É preciso que vá um técnico nosso até a residência do preso colher os dados e a assinatura. A sua deslocação será paga por vós.” O meu irmão ainda falou da facto da procuração ter sido feita enquanto estive em prisão efetiva no HPSP, disseram que é mesmo assim o procedimento. A procuração está ate agora a mofar cá comigo sem sabermos o que fazer.

Foi assim que quando retomamos o julgamento na terceira temporada, a 25 de janeiro de 2016, instei com os meus advogados que solicitassem ao juiz autorização para eu ir ao banco. Os multi-caixas podiam aguardar, mas que tinha de ir ao banco com urgência. Já não tinha dinheiro nenhum e família já estava a ressentir. Instei que constassem que o banco fica a pouco menos de 800 metros de casa (o SIAC do Cazenga é na BCA, onde eu moro). O que fizeram prontamente, mas a tal autorização tarda em chegar até hoje. Fizeram outras tentativas, mas parece que também não houve nada.

Estamos em situação de penúria extrema com a família (esposa, dois filhos menores de 5 anos, além de dois irmãos). Até agora, 12h11 do dia 09-02-2016, os meus filhos não comeram nada. Nos últimos dias temos vivido de praticamente uma refeição por dia e recorrentemente arroz branco… Mas branco no verdadeiro sentido e oferecido (dão-nos meio kg/dia).

Starving Family

Não me dão os multi-caixas. Não me deixam ir ao banco. Não me reconhecem a procuração. O que querem de mim e especialmente dos meus filhos menores? Por que acham que os menores devem pagar pelo meu suposto crime que até agora não foi provado? Que justiça deve ser essa?

A minha atitude de me negar a comparecer perante o tribunal até que me permitam ir ao banco é tida como desrespeito ao tribunal; que direi desta atitude maquiavélica de me ver, eu e os meus a penar sem necessidade, uma vez que tenho dinheiro no banco? Estaremos com isso a proteger e defender os direitos da criança? Os direitos humanos já nem posso falar pois alguém bem cotado entre nós, o nosso amado ditador, disse que “não enchem a barriga.”

Não deviam estar preocupados a produzir provas para o nosso suposto “golpe de estado” ao invés de mandarem sumariamente para cadeia ou aspirar fazer o mesmo para alguém que só quer ir ao banco?

A única coisa que sei, é que agora que sabem que não têm saída com o processo querem inventar desculpas. Querem distribuir a pressão e provocar uma tempestade numa rolha de blue com água.

M’banza Hamza

Por Nelson Dibango, um dos 15+2

A leve febre e dor de cabeça que iniciou e me acompanhou a maior parte do tempo vivido na prisão, às vezes aumentava e foi combatida cinco vezes com Quartem, algumas vezes com Dolarem e uma infinidade de vezes com Paracetamol. Nem sempre os resultados da básica analise de sangue acusavam positivo, nem sempre recebia os resultados, quase sempre era atendido, consultado e medicado por enfermeiros. Neste novo regime de coação, a situação prevalece. Já voltei duas vezes ao Hospital Prisão de São Paulo, sendo atendido e consultado por médicos que prescreveram exames de sangue que novamente acusaram negativo.

Aquando da primeira vez que adoeci, o único remédio que consegui adquirir da farmácia foram as gotas nasais, tendo ficado a faltar alguns analgésicos e a vitamina C. Da segunda vez só havia um dos cinco comprimidos indicados (Quartem). Detalhando o último caso, a minha experiência de auto-observação levou-me a concluir que a febre levezinha se precipita devido a pressão psíquica, condições sanitárias e desgaste físico. Acreditei na ideia de que temos sempre paludismo e febre tifóide encubados, que tornam a manifestar-se sempre que as condições psíquicas, sanitárias e desgaste físico do indivíduo assim o propiciem.

Em geral, sempre fui ao hospital procurando remediar a minha condição física pois sabia que era impossível melhorar definitivamente um problema com a prevalência da sua causa principal: os fatores externos…o meu meio. Respiro ar do esgoto no qual minha rua foi transformada (Rangel Brigada Rua da Mbaca), utilizo ventoinha para combater o calor noturno e para evitar mosquitos o mosquiteiro…sendo que estes também estão sempre a atualizar suas técnicas para ultrapassar a barreira.

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Bebo água calculando seu custo: 1 dólar por cada cinco litros de água mineral. Cada pessoa consome 1,5 litros/dia x 12 pessoas = 18 litros, o que dá um total de 3,6 USD/dia x 30 dias = 108 USD. A água da torneira cheira mal, sabe mal, e parece mal… cozinhamos com ela e desinfetamos para usar no banheiro. Aguentamos sempre mais um pouco, e porque pretendo acabar de escrever o livro que todas minhas energias indicam para escrever, tento manter-me concentrado.

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Só que as vezes tenho de ir ao tribunal e a forma como somos transportados nos leva à exaustão. O longo trajeto que somos obrigados a percorrer por falta de veículos disponíveis nos serviços prisionais me fez conhecer bairros dentro da cidade, com condições sanitárias drasticamente piores que a minha. Comemos cheiros de cores e formas tão raros que entendemos logo porque a nossa cidade é tão cara. A chegada ao tribunal é um alívio que rapidamente passa a suplício, pois o tempo de espera naquele buraco de betão é tão demorado que pode chegar a ultrapassar as 5 horas, sendo que já não foram poucas as vezes que no fim desse longo hiato, ficamos a saber que a sessão nem sequer arrancará, após o que temos de esperar mais uma a duas horas pelo regresso das viaturas que nos trazem de volta ao domicílio.

Não falo da sessão pois sinto que estaria a partilhar ofensas…só tenho a dizer que me fatiga bwé a psique…tenho pena de mim e de todos que ouvem e falam naquele local. Na penúltima sessão, já estava com febres e dor de cabeça fora dos meus parâmetros de “normalidade”. Não havia ambulância e tudo que muito sacrificadamente conseguiram arranjar-me foi um Paracetamol. Subimos para sala de audiências que estava um autêntico glaciar, tendo eu ainda a princípio pensado que seria impressão minha, que esta se devesse à febre. Depois vi várias pessoas tremendo de frio, incluindo alguns advogados. Pedi que se diminuísse a temperatura e eles aceitaram aconselhando-me na passada a mudar de lugar. Não notei alteração no ar…minha febre aumentou, aguentei a audiência, aguentei a extenuante viagem de regresso para casa, e disse aos manos que, prevalecendo a situação, não voltaria ao tribunal no dia seguinte.

Cheguei a casa, falei de meu estado de saúde à família, informando que rejeitaria ir ao tribunal se as condições permanecessem e que se tivesse que sair seria para o hospital. A febre piorou e quando fui acordado pelos agentes de serviço minha esposa já havia falado de minha condição de saúde e que não me deslocaria a tribunal naquele dia. Os agentes aflitos, consultaram os seus superiores e para o espanto de todos, não se opuseram a que eu ficasse em casa. Mais tarde fomos informados que não houve sessão. Voltei a fazer consulta no Hospital Prisão de São Paulo, fui atendido por enfermeiras que recomendaram uma gota espessa. O médico veio uma hora depois, cumprimentou-me e, ao sentir a minha mão quente exclamou com manifesta perplexidade: Estás mesmo com febres!…e apesar de sua simpatia, não conseguiu disfarçar a pressa em terminar o processo…fez a consulta de pé, passou a receita se apoiando num balcão ao lado e me indicou a função e forma de administração dos comprimidos. Voltou a estender-me a mão, dessa vez em gesto de despedida, subiu no carro e foi embora.

A minha esposa já me recomendava há uns tempos que fizesse exames para ver se não se tratava de infeção urinária, tendo reforçado o apelo depois de conversar com as esposas de dois manos dos 15. A medicação terminou, mas as febres e dor de cabeça continuaram… uma tia enfermeira que me observou, disse que, pela cor de meus olhos, poderia ser outra doença. Falou-me da infinidade de situações que poderiam estar ligada às tais febres e recomendou-me que fizesse novas consultas e novos exames.

A hipótese dela foi simplesmente lógica…porquê que os profissionais do hospital prisão não intuíram isto? Minha esposa reclamou dores de cabeça ontem e hoje teve que gastar praticamente metade do seu salário com consultas, análises e medicamentos para tratar infeções relacionadas aos órgãos íntimos. Eu não pude ir fazer as mesmas consultas pois o carro dos serviços prisionais e o patrulheiro da policia não vieram. A hipótese solicitada de ir com os agentes em meu carro, não foi respondida. Demos conta depois que mesmo que fossemos juntos, não poderíamos ter arcado com as despesas do meu tratamento, pois estando o mês no início já só lhe restava um terço do seu estipêndio (além da consulta já havia comprado produtos básicos para casa e para o bebé).

Não conseguiu dissimular a insatisfação estampada no seu rosto. Pus-me a pensar nas despesas com a casa esquecidas tal como as despesas das pessoas que partilham o mesmo teto comigo…elas que ate bem pouco tempo, respiraram por mim. Tive de parar de escrever o livro e começar analisar formas de obtenção de dinheiro. Estimei que quando saísse da cadeia iria juntar mais de 15.000,00 USD cobrando serviços prestados antes da minha detenção. Encontrei falidas a maior parte destas empresas que me deviam e as que sobreviveram estavam sem verbas para liquidar suas dívidas.

Gastei cerca de 8.000,00 USD para recuperar a minha esposa de um ato de grave negligência médica ocorrido na maternidade Lucrécia Paim e que foi amplamente divulgado nas redes sociais, chegando inclusive a ser mencionado como caso de estudo por um dos partícipes de um debate na TV Zimbo. Achamos que devemos ser reembolsados, mas a família está tão ressacada com o meu processo que foi sempre pondo de parte esta questão.

Encaro a crise como oportunidade de desenvolver vários projetos e atividades futuristas, consigo ver muita riqueza nela. Aguento a prisão até quando acabar de escrever ou a pressão de escrever…quando acabar vou querer desenvolver tais projetos, vou querer mais liberdade (surfar na crise) e caso esta me seja limitada, irei arranjar formas criativas de me manifestar. No livro “Livre na Prisão” falo do sentimento de prisão enquanto estive livre e do sentimento de liberdade enquanto estive preso.

Nelson Dibango

Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2016

Julgamento 15+2O juiz começou por passar para o Ministério Público e advogados de defesa um requerimento do Tribunal Militar Regional de Luanda (TMRL) em que é solicitado que o réu Osvaldo Caholo responda pelos supostos crimes militares, com o seu suposto co-conspirador Zenóbio Zumba, em sede do TMRL, no processo já em curso. Esse requerimento datado de 5 de Janeiro (este ano não houve férias judiciais para alguns) foi claramente uma manobra para o General José Maria não ter de “sofrer a humilhação” de se apresentar perante meros mortais no caso mais mediático de que há memória.

No dia de hoje foram ouvidos dois declarantes: O Padre Jacinto Pio Wacussanga, “presidente do Conselho Nacional Eleitoral do Governo de Salvação”, despachado em cerca de um quarto de hora depois de confirmar que só teve conhecimento oficial do suposto “Governo de Salvação Nacional” quando foi notificado pelo Tribunal Provincial de Luanda e que nenhum dos réus o contactou para “nomeia-lo” para “presidente da Comissão Nacional Eleitoral”.

O momento mais interessante foi quando foi chamado como declarante o senhor Pedro João, instrutor do processo. Ao juiz respondeu que a detenção foi feita em cumprimento de um despacho exarado por um qualquer “digníssimo” procurador. Caricato foi que ao analisar o dito despacho, os advogados de defesa repararam que o mesmo ordenava apenas e exclusivamente a apreensão de bens que fossem encontrados no local.

Questionado acerca da sua aparente iniciativa pessoal em ir mais além do que pedia o despacho, justificou dizendo que este era “vago” e “abrangente”, sugerindo que não teria portanto extravasado as ordens nele implícitas, pois teriam os indivíduos sido apanhados em flagrante delito de… actos preparatórios. O juiz perguntou se foram encontradas “armas e aviões” entre os objectos que tinham em posse e os advogados perguntaram que elementos indiciavam no momento de detenção que estaria perante um crime em preparação.
Resposta: a brochura que ensinava como destituir o Presidente da República.

Foi-lhe perguntado então se lera a brochura antes de concluir que era um manual de golpistas, ou se o terá lido em algum momento desde a detenção até a data actual. “Não”. Não leu. Então como explica o flagrante delito? Não explica, faz figuras tristes, lembrando aquele aluno na sala de aulas que não tendo coragem de assumir que não sabe a resposta à uma questão, vai gaguejando umas algaraviadas desconexas e sem sentido.

À instância do juiz afirmou ter informado os réus das razões pelas quais eram detidos, para onde estariam a ser levados e dos direitos que passavam a gozar naquela condição. Afirmou ainda que os familiares foram igualmente informados da sorte dos seus entes. Depois, já na instância da defesa, mudou o discurso para “não me recordo, foram muitos os actos levados à cabo desde 20 de Junho e não tenho bem presente, mas tenho quase a certeza de o ter feito”. Pois, não fez. Tanto não fez que ao chegarem à URP o crime do qual estavam acusados era o de “associação de malfeitores” e com esse crime inscrito na placa lhes foram tiradas as fotografias para abertura de cadastro.

Afirmou não conhecer o cidadão Agatão Dongala Kamate, inicialmente apontado como o cidadão que apresentou queixa acerca das actividades ilícitas levadas à cabo pelos jovens na Livraria Kiazele.
De uma só assentada fez também por se livrar da responsabilidade de identificar o cidadão Domingos Francisco, o suposto fornecedor dos vídeos ora usados como prova, contando uma história absolutamente estapafúrdia acerca de um jovem que o interrompeu enquanto conduzia uma acareação num caso de homicídio, que lhe deixou vários CD (não soube precisar quantos) e que pediu que aguardasse na sala de espera, coisa que o enigmático Domingos não fez, evaporando-se, aparentemente para todo o sempre.

Engraçado, ou se calhar nem por isso, é que o juiz alega ter o mesmo sido notificado para comparecer no tribunal, o que não deixa de suscitar a questão de como isso terá sido feito. Desta forma, o regime está a proteger os seus pintinhos: José Maria, Infiltrado #1 (sob o pseudónimo de Agatão) e infiltrado #2 (sob o pouco inspirado pseudónimo de Domingos Francisco).

Os moradores no Bairro da Cerâmica no município de Cacuaco precisam de apoio o mais urgente possível. A falta de acesso à zona no tempo chuvoso obriga as pessoas a inventar soluções menos seguras para poder atravessar a água, que pode a qualquer momento causar mais mortes. Para piorar a polícia que já mal circulava nos bairros agora deixou de entrar por falta da travessia, e os delinquentes vão aproveitando-se da situação.

Convidamos os funcionários públicos de Cacuaco a visitar a vala, ver e planear uma solução.

As últimas chuvas de 8 ao 16 de Dezembro acabaram por destruir o único suporte que possibilitava o movimento de pessoas e veículos. O caso já tinha sido analisado e apresentado na Central em Abril, veja aqui: https://centralangola7311.net/2015/04/03/vala-de-drenagem-come-pessoas-em-cacuaco-com-video/

Antes da chuva a drenagem era feita através de quatro (4) manilhas (vejam a foto com a gente a passar por cima dessas manilhas). Tinham sido colocadas pelos moradores para possibilitar o acesso para esta zona, visto que é uma via que dá acesso do bairro Paraíso à Vila de Cacuaco e vice-versa. Adicionalmente também servia para evitar mortes nas imediações da vala original no caso de acontecerem fortes enxurradas. Com a última chuva foi escavada uma nova vala em paralelo às manilhas, assim acabando com a estrada.

As primeiras 5 fotos estão postas na ordem geográfica, enquanto a 6a segue a número 5 mas com a situação visualizada do lado oposto. Já as fotos 7 e 8 foram tiradas do lado oposto do número 1 ou 2. Nestas últimas as manilhas não são visíveis, as pessoas estão em cima delas e a nova vala encontra se em frente da câmara. Foto 2 apresenta o problema: as manilhas continuam no local ao lado direito, mas deixaram de cumprir o seu papel. Criou-se a vala enorme que está a impossibilitar milhares de pessoas de atravessarem de um lado para outro.

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A improvisação é feita por jovens com bastões de ferro, mais tarde trocado pelas chaparias de carro. As manilhas já não estão seguras e se cair mais uma próxima chuva será bem provável que vão se embora também. Para os moradores atravessarem a drenagem têm que correr o grande risco de serem levados pelas fortes correntezas que esta água está a trazer nos dias de chuva. Os alunos são obrigados a faltar a escola. Ainda em Abril foi constatado que alguns morreram mesmo com as mochilas nas costas.

É culpa do cidadão? Ou podemos esperar uma ajuda das autoridades responsáveis dum departamento local para a área de Planeamento e do Desenvolvimento Territorial ou da Administração do Território, ou ainda do Urbanismo e Habitação, ou pode vir da Energia e Águas?

“Nós queremos que salvem as nossas vidas agora, e não nas campanhas eleitorais”

18 de Dezembro 2015

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Posted: January 13, 2016 in A Voz do Povo, Direitos Humanos, Julgamento 15+2, Luanda

Como foi o teu Natal?

Graças a muitos de vocês os 15 podiam ter um Natal mais Feliz, obrigado!

A campanha “Natal Feliz aos Presos Políticos” correu de 22 até 24 de Dezembro para recolher contributos financeiros em Luanda nas portarias das rádios Ecclesia e Radio Despertar. Para a gente que se encontra numa distância, como por exemplo vocês em Bié, Benguela ou São Paulo, havia contas bancárias para o efeito. A campanha foi liderada por Nvunda Tonet.

Só para lembrar, a detenção, de 20 de Junho, de 6 meses sem condenação nas várias cadeias de Luanda tem a sua base na acusação de “preparação de realização de acções tendentes á alteração do poder político em Angola, com a destituição do que alegam ser uma ditadura e que passaria de pela destituição do Presidente da República e de outros órgãos de soberania”, em outras palavras “nós (do Ministério Público) não fazemos ideia de que formular para fazer do caso algo sério mas com estes termos mais avançados e grotescos o pessoal das regiões do Massangano ou Saurimo, que somente têm a TPA, vão acreditar memo que estes 17 putos foram prometidos 100 milhões de dólares.”

Seguem em baixo as notícias originais do Coque Mukuta, jornalista da VOA sobre esta campanha, como também todas as fotos que ele tem publicado no seu Facebook.

“O Colectivo de Jornalistas, Psicólogos e Membros da Sociedade
Nota de Encorajamento

Prezados Senhores e senhoras

É com grande satisfação que toda a nossa equipa lhe agradece e lhe incoraja a manter o espirito dobre de solidariedade e voluntariado para uma iniciativa de todos os cidadãos corajosos e destemidos.

O Nosso Muito obrigado a todos os contribuintes. E como balanço provisório devemos informar o seguinte:

a) No dia 22 “Ontem – terça-feira”, o posto da Rádio Despertar funcionou até as 17horas, tendo angariado um total de 82,150.00kz “Oitenta e dois mil, cento e cinquenta Kwanzas”;
b) No dia 23 “Hoje – quarta-feira”, o mesmo posto trabalhou até 16horas e 30 minutos, tendo recolhido um total de 199,900.00 “Cento e noventa e nove mil novecentos kwanzas”;
Nb. Tendo somado um total de 282,050.00 kzs “Duzentos e oitenta e dois mil e cinquenta kwanzas”.

De recordar que o posto da Radio despertar está aberto às doações até amanhã as 12horas.

Novamente agradecemos a vossa atenção
Luanda, 23 de Dezembro de 2015

Atenciosamente,
CM”

“Já começou a recolha do doação para um “Natal Feliz aos Presos Políticos”

Um grupo de angolanos mobilizou-se para levar a cabo uma campanha de solidariedade aos 15 activistas em prisão domiciliária desde a passada sexta-feira.

“Natal Feliz aos Presos Políticos”, é o lema da campanha liderada pelo escritor e psicólogo Nvunda Tonet, filho do jornalista William Tonet, director do jornal Folha 8.

A nota enviada à nossa redacção indica que “a partir de amanhã, terça-feira 22 de Dezembro, pelas 8 horas, uma equipa estará à espera do seu contributo (financeiro) ” em diversos pontos de Luanda “para juntos proporcionar um Natal feliz aos 15 activistas presos políticos”.

As doações financeiras podem ser entregues na portaria das rádios Ecclesia e Despertar, em Luanda, até o dia 24 de Dezembro.”

22 de Dezembro,
Coque Mukuta Fb

https://www.facebook.com/centralangola7311/posts/976516995744651

Laurinda foi alvo de uma longa sessão de tortura por parte de 7 oficiais da Polícia Nacional de Angola e agentes da Segurança de Estado.

"Do you remember the days of slavery?" - Burning Spear

“Do you remember the days of slavery?” – Burning Spear

Ao começarem a emergir as imagens que atestavam para o “excesso de zelo” (por alguma razão, toda a hierarquia da polícia parece ser particularmente apreciadora deste eufemismo), começaram igualmente a fazer-se sentir as reações públicas de repúdio pelo ato e de solidariedade para com a nossa Laurinda (Reginaldo Silva, Aline Frazão, Bob da Rage Sense, Mónica Almeida, para citar apenas alguns dos nomes cintilantes do nosso “jet5”, omitindo propositadamente aqueles de quem a reação já seria aguardada com naturalidade, sem no entanto os considerarmos menos importantes) e de entre as várias propostas, uma muito interessante pela sua abrangência e envolvimento direto tem a ver com a abordagem individual de cidadãos para subscrever uma nota de repúdio a essa prática reiterada por parte dos homens da farda, violando de maneira flagrante e persistente à Constituição da República, forjando no processo uma relação com o cidadão que reflete pânico, rancor, raiva, desdém, enfim, tudo, exceto RESPEITO.

A campanha começou hoje, por iniciativa do professor universitário Nuno Álvaro Dala, depois de uma conversa de um par de horas com outros 4 jovens na UCAN, onde, ato contínuo, se procedeu à recolha das primeiras (retumbantes) 375 assinaturas.

Segue abaixo o texto na íntegra, caso queiras recolher também assinaturas na tua zona, local de trabalho ou outro, copia o texto, cola-o num ficheiro word e, uma vez as assinaturas recolhidas, scaneia a página das assinaturas e envia-a para nós por correio eletrónico (dia7angola@gmail.com).

 

CAMPANHA CONTRA A VIOLÊNCIA POLICIAL

A Polícia Nacional de Angola tem agredido sistematicamente cidadãos que tentam exercer seus direitos, constitucionlamente consagrados. A Constituição da República de Angola, artigo 31, diz:

A integridade moral, intelectual e física das pessoas é inviolável. O Estado respeita e protege a pessoa e a dignidade humanas.

A Polícia tem violado o direito dos cidadãos à integridade física. Cidadãos têm sido barbaramente agredidos ao exercerem seus direitos. No dia 23 de Novembro de 2014, foi brutalmente espancada a jovem estudante Laurinda Gouveia, que precisou de tratamento médico. Ela ainda está a sofrer as consequências dos espancamentos que levou dos agentes da Polícia.

JUNTE-SE A NÓS PARA EXIGIRMOS JUSTIÇA ÀS AUTORIDADES!

Queira assinar seu nome abaixo:

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