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RegiSil

Esta foi, talvez, a melhor reflexão que lemos sobre o dia 4 de Abril, Dia da Paz em Angola. Foi escrita pelo jornalista angolano Reginaldo Silva no seu mural. Transcrevemos na íntegra:

Com tal abordagem não quero de forma alguma dizer ou deixar entender que Angola não conquistou a paz, ou que Angola não vive em Paz.

Nada disso.

Quando falo da Derrota da Guerra versus Vitória da Paz estou a falar da paz como cultura política (como modus vivendi/modus faciendi) estabelecida a todos os níveis da sociedade e assumida por cada um de nós, não importa o poleiro em que se encontra.
É esta vitória que tenho “desconseguido” de celebrar no 4 de Abril, desde que ele entrou para a nossa história.

Como devem imaginar não posso celebrar uma coisa que os meus olhos não exergam, que eu não sinto no dia a dia e sobretudo em alguns relacionamentos quer pessoais, quer institucionais, por mais que o discurso me tente convencer do contrário ou por mais bandeiras gigantescas que se icem nos mastros deste país.

Estou a tentar aqui fazer uma abordagem estrutural da nossa sociedade, que continua em meu entender a ser dominada/gerida pela Cultura do Medo, da Ameaça e da Mordaça.

A ameaça já foi mais aberta e mais violenta, mas continua por aí a dar notícias muito preocupantes, como foi esta última da absolvição pelo Tribunal Supremo dos condenados no “caso Frescura”.

A mordaça já foi total, tendo sido agora substituída por pessoas que falam muito mas que dizem toda a mesma coisa em tons diferentes, mas sempre convergentes.

O medo continua bem presente, sobretudo o medo invisível das consequências, das retaliações, das despromoções, dos azares que nos podem acontecer a qualquer altura sem sabermos bem como nem porquê.

É este medo que continua a ser um dos grandes instrumentos da política feita por alguns níveis do sistema pela via da inércia, pois sabem que o condicionamento psicológico do passado ainda não desapareceu. É claramente a utilização do reflexo de Pavlov.
Um exemplo típico desta cultura é o elogio da coragem.

Por tudo e por quase nada, tendo em conta que formalmente já vivemos num Estado Democrático de Direito, as pessoas são elogiadas pelos seus próximos ou por desconhecidos, por terem tido a coragem de publicamente manifestar ou defender uma determinada posição que supostamente não é muito simpática aos olhos do poder instituído ou de alguém mais poderoso da sociedade, seja lá quem for.

Já não devia ser tão “normal” este elogio, onze anos depois das armas se terem calado.

Qual é a necessidade de coragem para afirmarmos valores tão pacíficos como a diferença ou a divergência?

Mas se o cidadão comum acha que é preciso coragem, então ele deve ter alguma razão para assim pensar.

Por mim acho que quem pensa assim, sabe bem porque é que ainda é necessário ter coragem neste país para sermos apenas cidadãos livres, passe a redundância.

Por tudo isto e por muito mais no meu calendário pessoal o 4 de Abril vai ter de aguardar por mais algum tempo, até que eu consiga celebrá-lo conforme gostaria.

Tenho a esperança que este ano vai chegar.

Viva a Paz!*

Posted: April 4, 2013 in Argumentos, Dia da Paz, Opinião

Desejamos a todos os angolanos um feliz dia da paz.*

*Paz não inclui:

After 10 years of peace is Dos Santos’ 32-year rule under threat?

-Article by Louise Redvers, ThinkAfricaPress

A secret pre-electoral survey, apparently conducted by a Brazilian company on behalf of the MPLA late last year, is understood to have forecast that the ruling party would only win around 48% of the vote.

Luanda, Angola: On Wednesday April 4 Angola celebrated the tenth anniversary of the end of its three-decade civil war.

But what should have been day of unified reflection and celebration was hijacked by the ruling Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) who turned the country-wide events into pro-government rallies that served only to underline the growing divisions within the country.

In a speech to thousands wearing white t-shirts bearing his face, long-serving president Jose Eduardo dos Santos hit out at opposition parties and civil society groups for criticising the government and denied claims the upcoming election was being rigged.

Dos Santos, who has been in power for 32 years, boasted to the crowd in the town of Luena, Moxico, close to where rebel leader Jonas Savimbi was killed back in 2002, that the MPLA was too big and powerful to need to cheat.

“We don’t need fraud, we don’t need tricks, we don’t need to cheat, we are very big and we are a very strong party,” he said, adding “Those who are strong don’t need to cheat to win.”

His retort was aimed directly at the União Nacional pela Independência Total de Angola (UNITA), once led by Savimbi and now the country’s largest opposition party. UNITA has been voicing its concerns about how the elections are being prepared.

They and the other parties were unhappy that voter registration began before the new electoral legislation was passed, but are even more annoyed about the appointment of Suzanna Ingles as chair of the National Electoral Commission (CNE).

Ingles, who is a lawyer rather than a judge as the law stipulates, is also a member of the MPLA Women’s group OMA which clearly brings the notion she is independent into question.

With only 16 parliamentary seats compared to the MPLA’s 191, UNITA was unable to stop the National Assembly endorsing the appointment and instead staged a walkout to show their frustration.

A complaint to the Constitutional Court has been rejected and there are low expectations about a similar appeal submitted to the Supreme Court now that Dos Santos, who personally appoints senior judges, has publicly pledged his confidence in the CNE.

No-one is quite sure how events will develop. UNITA – who like the other opposition parties were deliberately excluded from all peace celebrations – have not ruled out street protests.

Ahead of Wednesday’s anniversary, UNITA’s Horácio Junjuvili travelled to Johannesburg, South Africa, to brief international media about their concerns and the corner they find themselves in.

Defending accusations that UNITA themselves were to blame for their lack of presence in Angola, Junjuvili said the opposition had been bullied and repressed, and starved of media space and funds by a government becoming increasingly dictatorial and intolerant.

“In any normal country, if you had five months to go until an election and no credible electoral body, the polls would be delayed,” he said, sighing. “But Angola is not a normal country.”

Untouchable?

The rare trickle of wire coverage that this trip generated is unlikely to worry the Angolan government, which enjoy good relations with a wide portfolio of oil-hungry countries including the United States, the UK, France, Portugal, Brazil and China.

These nation’s diplomatic missions know very well what is going on in Angola. Some even fund the civil society groups who complain about media censorship and lack of human rights.

But satisfying local targets to “support good causes” is a world away from direct government-to-government challenges, and is likely to remain this way especially given Angola’s resource wealth and associated investment opportunities.

Adding to the concerns about the electoral preparation, there are now reports circulating that the European Union will not be sending any observers to monitor the election.

This leaves the job of evaluating the polls for fairness and freedom to the African Union (AU), of which Angola holds the chair of the peace and security council, and the Southern African Development Community (SADC), of which Angola is currently president.

Civil society groups are despairing. “The European Union observers were the only ones who raised red flags in the 2008 polls, now we will have no objectivity,” one activist lamented.

But going back to Dos Santos’ boast – that the MPLA does not need to cheat to win the upcoming polls – doth the president protest too much?

Read the rest of the article here

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Temos de ser justos e suficientemente nobres de espírito para reconhecer que nos últimos anos a nossa Polícia Nacional tem envidado esforços consideráveis para se desenvencilhar de uma pesada imagem de extorcionistas e criminosos institucionais nada abonatória aos “azulinhos”. Mesmo sem conhecer concretamente o que se faz e o jabakulé que se investe, podemos facilmente constatar no nosso dia-a-dia que os nossos anciãos e prepotentes agentes de trânsito estão a ser paulatinamente substituídos por outros, cada vez mais jovens e educados, sentindo-se os efeitos do critério de ter o ensino médio como escolaridade mínima obrigatória. Passou-se a estar menos “aterrorizado” ao ver-se à berma da estrada um agente, mesmo que ele denuncie a iniciativa de nos encostar com o já sabido propósito de nos exigir o seu bónus salarial (por horas extras, quiçá), pois passou a ser mais plausível sair-se incólume dessa desagradável situação, caso se dobre o agente pela retórica. Há mais desportivismo.

Antigamente, responder era automaticamente “desacato à autoridade” e recompensado com uma (ameaça de) viagem até “na unidade”! Nos tempos recentes tive de recorrer à polícia para casos de gravidade mínima, mas a resposta foi tão imediata e profissional que me deixou surpreendido e sensibilizado. A actuação discreta e irrepreensível do dia 2 de Abril foi a última vez em que tive de me render e tirar o chapéu aos nossos azulinhos, que souberam pautar-se pela rectidão da lei e não por prepotentes “ordens superiores” que, neste tipo de situações, acabam por prevalecer.

Nem tudo são rosas e, assim como uma mosca na sopa, certos indivíduos conseguem singularmente minar os esforços empreendidos pela corporação fazendo com que se atarde mais essa transição polícia do MPLA/polícia ao serviço do cidadão. O caso Quim Ribeiro é o mais flagrante e mediático dos dias que correm, mas não é um caso isolado. Todos conhecem o gosto da Comandante Elisabeth “Bety” Franck pela distribuição de “bolacha-xadrez”, todos ouviram falar do caso Frescura e outros casos análogos em que a Polícia, identificando autores reincidentes de crimes graves, responde com o mesmo peso e medida, executando os cidadãos (muitas vezes à frente das famílias) para servir de exemplo aos seus colegas, controlando desse modo bárbaro apesar de eficaz, o nível da criminalidade na cidade (temporariamente). Todos também já testemunharam o abuso de alguns agentes da PN quando aterrorizam as nossas zungueiras, dando-lhes corrida e ROUBANDO-LHES o seu ganha-pão. Se tiveram a mesma sorte que eu quando precisei de ligar para o número das urgências inscrito em todo o Audi A3 da PN, bem que esperaram, desesperaram e acabaram por ter de recorrer a outra alternativa para solucionar a vossa urgência, provavelmente à justiça pelas próprias mãos.

Quando nós, meros cidadãos, decidimos tecer uma crítica, não é por mero instinto destrutivo do bom nome e da idoneidade dos servidores públicos que zelam pela ordem e segurança na sociedade, mas, ao contrário, por desejar ardentemente que se aproximem cada vez mais desses predicados e por acreditar piamente que só através da crítica podemos enfrentar as fraquezas que nos impedem de os atingir. É animados desse espírito que decidimos denunciar a prevaricação aberrante da lei que alguns “superiores” ainda impõem aos voluntariosos e crédulos agentes da autoridade, submetendo-os à difícil decisão de agirem à margem de todos os ensinamentos a que foram sujeitos ao longo da sua formação profissional.

Contextualização – 30 Abril

O primeiro excerto audio corresponde à nossa ida ao GPL no dia em que respondíamos a um “convite” do Diretor do Gabinete Jurídico, Carlos Alberto Cavuquila. Os contornos já todos ouviram por alto, alguns de nós estaríamos indecentemente trajados para ser recebido por tão ilustre figura, de modos que decidimos não entrar. Foi quando dois de nós entraram para fazer a entrega desta comunicação

 Acerca do convite que nos foi endereçado

que o perspicaz senhor, dando-se conta da presença de dois elementos do grupo, os foi convencendo a ficar, comunicando-lhes ao que tinhamos sido chamados.

Entretanto lá fora, o resto do grupo aguardava a saída dos dois primeiros, de pé, no passeio do parque de estacionamento ilegalmente reservado aos funcionários do GPL (não existe lá placa nenhuma que anuncie essa excepção),

portanto do outro lado da estrada de quem sai do edifício, quando, primeiro dois agentes fardados, depois um à paisana, nos vêm exigir que saiamos do local argumentando que era proibido estarmos ali. O agente à paisana veio primeiro com uma falsa missão reconciliatória e começou a dar-nos uma aula de moral sobre a nossa maneira de nos vestirmos. Como não encontrou a complacência que provavelmente esperava, começou a subir de tom e num instante começaram as ameaças. Constatando que nem essas surtiram efeito, afastou-se vociferando que “vão ver então”. Nisso, atravessa a estrada, fazendo questão de levantar a camisola exibindo a arma que transportava. Nesse ponto começa este audio.

Resumindo: o agente à paisana chamou um carro da polícia para nos levar argumentando que seríamos desordeiros a perturbar a ordem pública, cometendo “atos de vandalismo”. Os agentes, acatando a ordem sem nos questionarem chegando ao local, nos ordenaram que subíssemos no veículo policial. Como encontraram resistência as coisas se foram acalentando o que levou a uma concentração dos populares que por ali circulavam. Entretanto os nossos camaradas saiem e encontrando essa situação voltam para dentro para chamar o assessor do Sr. Cavuquila que vem meter água na fervura e resolve tudo com um simples “está tudo bem” dirigido aos agentes da PN.

Dia 4

Como se pode constatar na carta que nos foi enviada pelo GOVERNADOR, o motivo alegado para nos enviarem para o Quintal da Independência, local de lançamento de cd’s e passeatas familiares acessíveis ao módico preço de 50 kz, foi o facto de se ir realizar no largo uma actividade alusiva ao dia da paz.

Assim sendo, decidimos que iríamos participar nesse evento, mas qual não foi a nossa surpresa ao lá chegar e ver que não havia nada! Foi tudo (mais) uma armação triste do governo para nos tirar a visibilidade, não havia, nem nunca houve intenção de realizar evento algum alusivo ao dia da paz naquele largo, o que mostra sem margem para dúvidas que esses nossos “democratas” estão indelevelmente contaminados pelo vírus da ditadura que vem da escola do partido único.

Dado que já estávamos lá e que alguns de nós vinham de muito longe explicitamente para aquela actividade, decidimos que íamos ficar por ali uma hora, com os nossos cartazes celebrativos da árdua conquista do cessar-fogo definitivo de 2002.

Quando o aglomerado começou a crescer, o efectivo policial multiplicou-se num piscar de olhos, ali mesmo em frente ao muro da escola Nzinga Mbandi, local eleito para a aglomeração antes de nos dirigirmos ao Largo da Independência.

Aproximou-se um Comandante, que é o que podemos ouvir no início do audio a questionar os reais motivos da nossa deslocação àquele local. Depois um outro, aparentemente superior do primeiro que conclui este audio indagando: “será?”

Segue-se um debate entre o comandante-chefe e alguns de nós procurando a justificação legal de nos impedirem o acesso ao largo. “Barulho tem sítios próprios”, “… há lugares que são sagrados”, “…o objecto social do largo”, “…local de confluência de tráfico… pode um carro ir de encontro aos manifestantes…”, enfim, pretextos sem sentido que a medida que vão sendo dados, vão revelando a carência de argumentos legais dos agentes que estão simplesmente a cumprir ordens superiores.

A discussão continua, o Comandante é polido e civilizado, ainda que sem argumentos. Mostramos-lhe um dos cartazes que levámos e, começando a sorrir, continuou a tentar reprovar-nos delicadamente a nossa intenção, mas vendo-se encurralado em termos de argumentação cedeu, afastando-se para ligar para um “superior”, pois a lei pura e dura não constituia autoridade suficiente.

“Orientações superiores: não estão autorizados. Qualquer tentativa de ocupar o largo será interpretado como desobediência policial!”

A conversa continuou sobretudo entre a kota Elsa Luvualu e o primeiro Comandante subalterno, ele também muito atrapalhado e sem saber como nos recusar um direito. A conversa foi amigável como se pode ouvir no audio abaixo e nós garantimos aos agentes que não iríamos exibir os nossos cartazes, oferendo-nos inclusivé para lhes deixar o material sob custódia enquanto estivessemos concentrados no largo.

Parecia que tudo ia bem, até que, já quase a chegar ao largo, o Comandante subalterno visivelmente afogueado põe-se a gritar para não prosseguirmos, mas mais em pânico do que autoritário. As coisas começam a sair dos eixos, os kalundus sobem, a situação começa a sair de controle.

Não estávamos dispostos a recuar e insistimos para obrigá-los a violar a lei. O Comandante assume que “receberam instruções” e nos pedimos o nome do “instrutor” para processá-lo. Os argumentos da PN esfumam-se e fazem perguntas sem nexo do género “se vieram se manifestar no largo, concentraram-se à frente da escola porquê?”. Sentimos que a bola estava do nosso lado. O “Comandante” recusa identificar-se ou denominar o “instrutor”.

Sentindo a atrapalhação do Comandante “comandante”, outro lhe veio em socorro pedindo o documento que “provava” que estaria marcada uma actividade para o largo naquele dia. Lendo a carta que nos foi remetida pelo governador, ele diz que “nem deveríamos exibir esse documento como justificativo”. Mais argumentos de palha, facilmente incendiáveis.

  • “Encostem ali!”
  • “Não vamos encostar! Vão ter de nos prender a todos”
  • “Achas o quê, só vão ficar aqui dois, os outros vão fugir”

Estavam malaikes com o facto de encontrarem resistência aos seus ameaços vãos e desacudidos pela lei. Não é hábito e os superiores pareciam estar confiantes que a prepotência intimidatória seria suficiente pois não parecia haver instruções sobre como agir no caso de “desacato à autoridade”. Ficámos ali até ver qual seria a etapa seguinte das ameaças.

Tentámos mais uma vez mostrar que entendíamos a posição complicada dos agentes que não estariam a agir de acordo com a consciência e formação e que estaríamos dispostos a não pô-los em risco de perderem o emprego, entregando-lhes o nosso material de propaganda e dando-lhes a nossa palavra de honra que não iríamos fazer mais do que nos sentar e trocar ideias, sem palavras de ordem ou qualquer outra atitude que sugerisse sequer tratar-se de uma manifestação.

O “superior” deu a cara. SINFO. Veio falar-nos, dizer-nos o que já sabíamos, ameaçar um pouco mais e recolher de nós, mais uma vez, a promessa que não iríamos manifestar-nos oferecendo-nos inclusivamente para que nos levassem ILEGALMENTE detidos caso não honrássemos a nossa palavra.

Já ganhámos. Entrámos, acabou por se juntar mais gente ao grupo inicial, apareceram algumas figuras públicas para nos parabenizar e nos “dar” força e acabámos por ficar por ali até já depois das 20h00, obedecendo rigorosamente ao nosso compromisso verbal.

“Viva a paz, viva Angola!”

A Luta Continua

Posted: April 4, 2011 in Argumentos, Dia da Paz, Opinião

Por Victor de Barros (do blog Havemos de Voltar)

Mais um dia 4 de Abril é comemorado na jovem história pós-guerra do nosso país. Como é de hábito, nas datas festivas em Angola organizam-se passeatas, festivais, maratonas e eventos similares. O Dia da Paz não foge a regra. Reclames publicitários tanto nas rádios como nas televisões evidenciam a euforia vivida nas vésperas desta data e a ansiedade do povo em desfrutar de mais um fim-de-semana prolongado.

No meio deste tumulto, tenho a infeliz percepção que a maior parte do povo angolano não se dá conta do contexto único em que o 4 de Abril de 2011 será comemorado. Deveria ser mais do que óbvio que o periodo em que vivemos actualmente representa um momento de viragem na história universal. A manifestação popular que se passou na Tunísia alastrou-se para o Egipto e a sua influência se fez sentir até a Líbia. Este evento influenciou significativamente o restante do continente, e o nosso país não foi uma excepção. A vaga de sentimentos revolucionarios que recheia a alma do povo que, recorrendo a todos os meios ao seu alcance, tenta de forma desesperada resgatar a si proprio é, no meu ponto de vista, equiparável a situaçao existente na época colonial, em que os nossos pais e avós desejavam calorosamente a libertaçao do jugo português.
A manifestação do dia 7 de Março de 2011 em Luanda foi meramente a materialização deste sentimento de revolta que vem, pouco a pouco, tomando conta do ser de um número cada vez mais significante de cidadãos. As bocas, embora ainda silenciosas, já não estão completamente caladas e o poder estabelecido já sente uma certa pressão sobre si. Mas, como escreveu e bem Kukiela, este foi meramente o primeiro passo. Claramente esta afirmação implica uma continuidade, implica que mais passos devem ser dados. Para muitos dos jovens angolanos na diáspora, o próximo passo tomou a forma de um número de manifestações que se realizaram nos respectivos paises em que residem. Para meia-dúzia de pessoas que decidem não tapar o sol com a peneira em Luanda, o próximo passo será meterializado através de uma manifestação com a finalidade de reclamar os atropelos à liberdade de expressão que acontecem no nosso país. Daí surge, talvez até prematuramente, uma preocupação cujo resultado é este artigo.

Para quem conhece bem a psicologia do povo angolano é sabido que tudo vira moda neste país. A minha preocupação é que este clima promissor que se vive actualmente seja reduzido a uma mera febre de manifestações que no final das contas terão um resultado insignificante. Digo isto porque embora certas pessoas tenham uma ideia clara dos ideais e propósitos das manifestações que apoiam, uma leitura de comentários na internet demonstra que a maior parte dos participantes engagam nessas demonstrações ou pelas suas frustrações pessoais ou por uma esperança, geralmente infundada, resultante de um desgaste pessoal causado pelas batalhas diárias travadas a fim de vencer as dificuldades que o sistema apresenta. Estes dois sentimentos são fervorosos e dão um impulso considerável no início de qualquer revolução. Contudo, eles não são muito duradouros e consequentemente são incapazes de alimentar um processo revolucionário na sua íntrega. Para que uma revolução seja bem sucedida é necessário uma convicção, uma entrega ideológica e emocional à causa a ser defendida. Se analisarmos o sucedido nos países norte-africanos, este factor foi evidente: as pessoas eram solidárias umas com as outras até ao ponto da polícia rejeitar combater os manifestantes por se identificar com os seus motivos, com as suas indignações. Todos eram a favor do ideal que a manifestação propunha. Nenhum dos manifestantes pós o seu cargo como professor, polícia, comerciante ou outra qualquer conquista pessoal acima das convicções defendidas. Todos eram um só povo, todos eram uma só nação! Adicionalmente a este factor, também é necessário ter-se uma ideia clara de como prosseguir após uma manifestação bem sucedida. Comentários como “o povo está cansado” e “o governo é corrupto”, embora carreguem uma carga emocional muito forte, não são muito úteis em termos prácticos.

Se, hipoteticamente falando, o governo decide oferecer uma casa, um carro e uma soma de dinheiro a todos que se auto-entitulam revolucionários no nosso país, eu acredito que mais de 90% destas pessoas abandonariam a causa no mesmo instante. Isto pelo simples facto da contestação não ser contra o sistema em si, mas contra o facto de que essas mesmas pessoas não obtêm lucros deste mesmo sistema. A intenção não é mudar o sistema, mas sim mudar a condição pessoal de cada indivíduo. A atitude é “já que até agora não vi nada, vamos mudar o governo para ver se vejo alguma coisa”. E é óbvio que se a situação se mantiver, mais revoluções acontecerão. O bode espiatório é sempre o chefe-de-estado e o seu governo. Embora esta seja uma ideia que agrade algumas pessoas, na minha óptica, ao menos que exista a convicção revolucionária mencionada anteriormente, o que exigiria um processo (geralmente moroso) de instrucção e de planejamento, todas essas manifestações a serem organizadas serão ineficientes. Suponhamos que uma audiência com o chefe-de-estado seja solicitada aos líderes destas manifestações. Acredito que as exigências seriam na linha do “queremos ter mais liberdade de expressão”, ou “queremos o fim da corrupção” ou algo similar. Ao meu ver, um plano de como alcançar essas exigências do ponto de vista dos manifestantes seria mais relevante. Uma lista de procedimentos a serem implementados pelo Estado, verificável nos seus mais diversos níveis de implementação, daria mais solidez a qualquer forma de indignação popular caso não fosse honrada.

Infelizmente, por esta altura muitos dos leitores já classificaram este artigo como pró-governo, como pró-MPLA. Gostaria de deixar claro que este não é o caso. Como Claúdio Silva já fez referência, a cultura de que no nosso país apenas duas posições políticas (pró e contra MPLA) existem tem que acabar. As minhas convicções políticas são irrelevantes para este artigo. Simplesmente acredito que não podemos cobrar do governo o que nós próprios, o povo, não estamos dispostos a oferecer. Não quero com isso dizer que não existem falhas graves no governo que devam ser corrigidas independentemente da participação popular, mas para os factores que considero básicos e mais relevantes para uma governação eficaz, a participação do povo é essencial. Por exemplo, como podemos cobrar liberdade de expressão do governo se não deixamos o nosso co-cidadão exprimir livremente a sua opção religiosa, orientação sexual ou escolhas um pouco diferentes das nossas? Como podemos cobrar imparcialidade do governo se somos parciais com nós mesmos? Como cobrar organização administrativa se nós próprios somos completamente desorganizados? Essas questões nem sequer são apresentadas do ponto de vista moral, mas sim do ponto de vista práctico, visto que não obstante ser verdade que moralmente não possamos exigir dos outros o que não estamos preparados a dar, é impossivel o governo limpar um povo sujo, o governo dar liberdade a um povo opressor, o governo trazer prosperidade a um país desorganizado e por aí em diante.

Há quem diga que cada povo merece o governo que tem. Não me pronunciarei quanto a veracidade deste ditado, mas lanço um desafio a nós mesmos: mudemo-nos a nós próprios, o povo, antes de exigirmos mudanças do governo. Deitemos o lixo de nossas casas nos contentores ao invés de na porta do vizinho ou pela janela do apartamento. Sejamos educados e cuidadosos com o próximo ao invés de querermos sempre tirar partido das pessoas e parecer superiores, como se nos envergonhassemos de ser simples cidadãos comuns. Que criemos grupos de acção nos nossos bairros, que promovamos o debate e a troca de ideias de qualquer forma que estiver ao nosso alcance. Se o governo nos impossibilitar desses esforços por qualquer motivo (o que não creio que aconteça), que façamos o que tiver que ser feito de forma clandestina. Antes de darmos os nossos problemas a terceiros, que sejamos nós próprios a tentar resolve-los.

Nas vésperas de mais um dia de celebrações no nosso país proponho que nós, o povo, iniciemos uma revolução no nosso seio. Que nos manifestemos contra aqueles que são corruptos, contra aqueles que são egoístas e aproveitadores no meio de nós. Que aqueles que tornam a nossa sociedade vergonhosa sejam instruidos e recuperados, e caso este processo falhe, que sejam marginalizados. Nas vésperas do dia 4 de Abril de 2011, proponho que utilizemos o gás de mudança que se encontra disponível actualmente de uma maneira sábia, não deixando-o vazar completamente antes que a grande explosão aconteça. Que multipliquemos as nossas virtudes e abdiquemos dos nossos vícios. Que identifiquemos e trabalhemos em prol de mudanças relevantes, efectivas e duradouras para a melhoria das condições de todo o povo no nosso país, de Cabinda ao Cunene. Embora se comemore a 4 de Abril de 2011 mais um Dia da Paz, para nós, o povo, a luta continua. Quanto a victória… essa depende de nós próprios!

Victor de Barros