Archive for the ‘Manifestação 10 de Março’ Category

O pai do Quim foi militar. Lutou pela independência de Angola. Ajudou a libertar Angola do jugo do colonialismo. No seguimento do dia 10, viveu o terror de não saber do paradeiro do seu filho, e pior, de o ver chegar a casa depois ensanguentado, torturado, e espancado por ter participado numa manifestação, salvaguardada pela Lei vigente no país.

O regime agora tortura os netos daqueles que lutaram para a independência do seu país.

O pai do Quim bem lembra que no tempo do colonialismo, a luta pela independência começou com manifestações, que nem eram pacíficas. Oiçam o desabafo de um homem que se sente injustiçado, defraudado mesmo, pelo rumo que as coisas levaram. Oiçam a sua angustia e o seu sentimento de traição. Não foi por isto que ele lutou.

Este vídeo foi gravado há exatamente 15 dias. O jovem Joaquim Andrade Manuel tinha sido posto em liberdade (sem nunca lhe ter sido dada voz de prisão, sem nunca ter pendido sobre si qualquer acusação) com os seus dois camaradas há apenas 3 dias. Ele contou-nos detalhadamente o horror que viveu nas mãos dos seus carrascos, entre policiais à paisana e fardados, todos a trabalhar juntos. Espancados, primeiro por serem “dissidentes da história única” e ousarem tornar públicas as suas posições, depois por encorajamento da própria população, depois, quiçá, para aprenderem definitivamente uma “lição” e regressarem às suas casas traumatizados, dissuadindo os outros de voltar a participar em manifestações, ainda que legais, ainda que legítimas.

Nós não temos acesso à TPA, não nos pedem a nossa versão no JA e na RNA, bilhas, já nem na Ecclésia e na Despertar somos tão benvindos, mas temos o dever e a responsabilidade de tornar públicos os nossos relatos, por mais limitados que sejam os meios ao nosso dispor para fazê-lo, pois esta, é a única maneira de dar a nossa versão, de vocês poderem comparar os dois lados e tirar as vossas conclusões, esta é a nossa maneira de nos defendermos.

Reproduzimos aqui um excerto da sincera e sentida carta que o nosso dikota Marcolino Moco enviou aos seus amigos do partido, suplicando-lhes que não se deixem levar no arrastão da vontade de uma clique de medrosos dentro do M, que estão a sujar a imagem do partido, do regime e do país que por tanto já passou.

Reproduzimos aqui um excerto do texto, remetendo-vos no final para o texto completo na página pessoal do próprio Marcolino Moco. Segue:

Conversa com camaradas do MPLA

Não é como membros do nosso partido, o glorioso MPLA, como tal, que vos falo. Falo-vos como homens vivos, homens de carne e osso, por isso com defeitos e virtudes; sobretudo homens e mulheres companheiros meus em jornadas imemoráveis nas “batalhas pela vida”, parafraseando o nosso Neto.
Olhem para essa foto em que estou ao lado do Filomeno. Isto nos dignifica?

Uma visita de solidariedade a Filomeno Vieira Lopes em sua casa

Camaradas João Pinto, Rui Falcão, João Melo, Bento Bento, Norberto do Comité Provincial de Luanda; vocês vão aparecer nos próximos dias na comunicação social a defender isso?
Também tu, camarada Gigi, irás defender esta coisa, como o fazes em relação a absurda nomeação de uma advogada (quando a Lei impõe um(a) juiz (a)) para Presidente do CNE, que ostensivamente já entrou em funções, numa situação em que praticamente se chama de estúpidos a todos os angolanos? É isso que um partido enorme como o MPLA precisa para não deixar espaço aos outros como dizes? Por amor de Deus!
Por favor, por causa desta conversa convosco, não me venham mais dizer que quando eu estava na direcção não abri a boca. Como, se nessa altura nunca aconteceram coisas tão absurdas? Nessa altura quem me parecia fazer coisas absurdas era a UNITA de Jonas Savimbi, homem que agora começa a suscitar a admiração positiva de muitos angolanos, sobretudo de jovens e aqui na grande capital, Luanda, baluarte do MPLA. É verdade que nem eu nem outros camaradas eramos santos, nessa altura. Não acham que agora se está a ir longe demais?…”

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Estas são, para já, as únicas imagens que temos da manifestação ocorrida no dia 10 de Março. Infelizmente a filmagem parou cedo demais, ficam por mostrar os carros da polícia que, de passagem, fingiam não ver os nossos pedidos de socorro, metendo-se em fuga logo de seguida. Literalmente em fuga, acelarando as carrinhas como se estivessem a fugir de uma tentativa de assalto.

Ficam por mostrar as agressões à bastonada a jovens transeuntes, provavelmente sem a mínima ideia que deveria ocorrer uma manifestação naquele dia, naquele local. Muita coisa entregue ao subentendido do espetador, mas uma coisa é certa: está claro quem agride e quem é agredido, mesmo que isso não seja suficienta para aqueles que voluntariamente se cegam para não se verem à braços com a missão impossível de negar o óbvio!

A cada dia que passa, a “ventania” continua a ser descredibilizada. Os factos estão à mostra para todo mundo ver, e só não vê quem não ver. Diz o ditado que o pior cego…

Nas imagens que se seguem é possível ver o modus operandi da dupla ‘Milícia – Polícia’ que actua nas manifestações. Depois de uma surra bem dada à jovens indefesos e em pleno exercício dos seus direitos constitucionais, a dupla do terror ate ri-se. As imagens que se seguem não só descredibilizam a “ventania” como também descridibilizam o porta-voz da Polícia, Nestor Gourgel, o Ministro do Interior, Sebastião Martins, alguns “opinion makers” e “jornalistas” da nossa praça, e todos aqueles que insistem que não há nenhuma relação entre as mílicias armadas e a Polícia Nacional. O que por si só revela o engajamento das mais altas autoridades do país na recorrente violência contra quem pensa diferente.

É que a mentira tem pernas curtas!

Todos já ouviram o depoimento do jovem “Vento” que assume ter uma organização que age “com determinação” em defesa da paz e da segurança nacional. O que ficou por mostrar foram os métodos que já foram amplamente divulgados tanto por nós, como pelo club-k e pelas diferentes contas de facebook das pessoas que já não se sentem mais intimidadas em falar. As imagens falam por si e mostram o absoluto contra-senso das palavras de quem se diz “defensor da paz”, pois, as imagens de feridos de guerra são invariavelmente do lado de quem supostamente quer arruaça e desestabilização da harmonia nacional. Como é possível não haver nem uma baixa do lado deles? Os que querem guerra andam desarmados e os protetores da paz lascam paus, ferros e dão tiros a estes jovens malfeitores que só estão a exercer um direito constitucional e ainda têm tempo de antena cíclico nos nossos mídia públicos. Será que o governo ainda acha que está a enganar alguém com esta conversa para boi dormir? VÃO LÁ TOMAR BANHO!

 

Numa carta enviada ao PR, à PGR, ao Provedor de Justiça e ao Tribunal Constitucional, por iniciativa em passo de corrida da nossa kota Cristina Pinto, a qual cerca de 50 pessoas subscreveram em menos de 24 horas, repudia-se veementemente e sem contemplações, as repetidas agressões físicas e psicológicas que se têm infligido aos manifestantes que mais não fazem do que exercer os seus direitos fundamentais, com particular incidência para os eventos de sábado último, dia 10 de Março.

Menciona-se ainda a estranheza preocupante com que viram ser dada cobertura mediática a “um grupo de cidadãos não identificados” que se proclamam defensores da paz, mas que declaram estar prontos a ações à margem da lei (leia-se partir crânios à cidadãos indefesos com cobertura dos fardados).

Exorta-se ainda à reposição da lei e da ordem, que sejam identificados, capturados, julgados e condenados os prevaricadores que continuam por aí à solta, a treinar-se para as próximas ações de combate.

Não scaneámos todas as páginas repletas de assinaturas, pois a maior parte delas são de jovens desconhecidos do grande público, que decidiram dizer BASTA ao silêncio e juntaram os seus nomes a esta lista de ilustres que inclui: Mendes de Carvalho, Marcolino Moco, Pepetela, Jacques dos Santos, Carlos Ferreira “Cassé” (cronista do NJ, compositor) e António Tomás (Professor Antropólogo nos EUA, escritor e colaborador do NJ).

Atitudes como esta são preciosas e mostram-nos que há pessoas atentas e de coração nas mãos pela nossa segurança e integridade físicas que, apesar de não terem intenção de se juntar a nós nas ruas, não se deixam vencer pela apatia e pelo medo e tomam uma posição clara contra a violência que advogamos desde as primeiras manifestações.

Nós, os “arruaceiros” nos congratulamos por este gesto e vos agradecemos pelo apoio agora prestado.

VIVA ANGOLA!

cartaz 27 de maio 1977

Para se aperceberem da dimensão da ferida na cabeça do Luaty provocada pela pancada violenta com pau grosso e sujo. Já o aconselhámos a manter o “corte de cabelo” para ver se lança uma nova moda: “estilo manifestante-que-olha-a-morte- nos-olhos”:

NOTA DE REPÚDIO DAS ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL DEFENSORAS DE DIREITOS HUMANOS SOBRE OS ACONTECIMENTOS DE 09 E 10 DE MARÇO
As Organizações da Sociedade Civil Defensoras de Direitos Humanos, subscritoras da presente tomada de posição, tomaram conhecimento, com bastante preocupação, das agressões e detenções perpetradas contra manifestantes nas Províncias de Luanda e Benguela, nos dias 09 e 10 de Março.
Os actos de intimidação e agressão dos manifestantes pacificos tiveram início na Província de Luanda, onde alguns dos promotores da manifestação foram intimidados e agredidos ainda na véspera do dia da manifestação, nas suas próprias residências.
No dia 10 de Março, no Município do Cazenga, foram efectuados disparos com armas de fogo, por parte de agentes da polícia nacional, com o firme propósito de dispersar os manifestantes, chegando alguns dos manifestantes a refugiarem-se em residências que se encontravam nas imediações, sendo, posteriormente, estas residências arrombadas por agentes da polícia à paisana que, munidos de cabos eléctricos, agrediam os manifestantes.
Ainda em Luanda, nas imediações do Hospital Militar, um grupo de manifestantes foi agredido por indivíduos supostamente pertencentes à polícia nacional, e que naquele momento se encontravam à paisana no local.
Nas imediações do Largo da Independência alguns cidadãos foram alvos de revistas por agentes da polícia que se encontravam à paisana.
Na Província de Benguela encontram-se ilegalmente detidos, desde o dia 10 de Março, um dos promotores da manifestação e um jovem da brigada de jornalistas da Associação Omunga, sendo que este último se encontrava a cobrir a manifestação na qualidade de organização observadora junto da Comissão Africa dos Direitos Humanos e dos Povos.
As organizações aqui subscritoras reiteram uma vez mais que, nos termos da Constituição da República de Angola, artigo 47º, “é garantido a todos os cidadãos a liberdade de reunião e manifestação pacífica e sem armas, sem necessidade de qualquer autorização nos termos da lei”.
As organizações subscritoras condenam uma vez mais todos os actos de violência e intimidação perpetrados contra os manifestantes e promotores das manifestações.
Condenam igualmente a actuação dos agentes da polícia nacional que ao invés de proteger e garantir a segurança dos manifestantes, são os primeiros a insurgir-se contra os manifestantes, quer de forma clara, como de forma velada.
Atendendo ao facto de que os autores das agressões se encontrarem perfeitamente identificados e localizáveis, apelamos a responsabilização criminal e civil dos mesmos, sob pena de se continuar a assistir de forma reiterada e cada vez mais violenta e impune as violações dos direitos humanos dos manifestantes.

Apela-se a Procuradoria Geral da República a instauração dos respectivos processos crimes contra os agressores.
Apelamos igualmente a libertação imediata e incondicional de um dos promotores da manifestação e do jovem da brigada de jornalistas da Associação Omunga, que se encontram detidos na Província de Benguela.
Pelas organizações subscritoras:
Organização                                                                                Assinatura
Associação Justiça, Paz e Democracia                               António Ventura
Associação Mãos Livres                                                           Salvador Freire dos Santos
ADSA                                                                                                Nelson Paulo
Angola 2000                                                                                Cirilo Mbonge
Fundação Open Society Angola                                           Elias Mateus Isaac
SOS – Habitat                                                                               Rafael Morais
Associação OMUNGA                                                              José Patrocínio
Associação Construindo Comunidades                           Domingos Fingo
Plataforma de Mulheres em Acção                                   Verónica Sapalo

 

PDF disponível aqui:  NOTA DE REPÚDIO 9_10_MARÇO