Archive for the ‘Manifestação 10 de Março’ Category


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DESABAFO

Não sou de escrever neste estado de espírito,
Algo pretende sair dentro de mim,
Não sei o que é,
Ainda tenho em mim,
A imagem do suposto diálogo juvenil,
Corpos parecendo batuques,
Onde os CAENXES do bento kangamba,
Eram os percussionistas,
Com ferros e paus na mão,
Disposto a causarem danos,
Por ordens superiores,
Levou-se tanto, mas mesmo assim,
O pessoal continuo pacífico,
Depois de tanta porrada,
Do VICE-ADMINISTRADOR DO CAZENGA,
Que se fazia presente no local e até estava a negociar,
Para não partimos para a violência, mesmo depois de tantas detenções e ferimentos dos nossos manos,
O VICE pôs-se a falar comigo e o Tukayano,
Me lembro de ter ouvido alguém a gritar: “AGARREM-ME O MULATO” (ninguém sabe o que eles pretendiam com o Luaty), segundos depois mano Luaty já se encontrava no chão ensanguentado, fizemos logo uma cobertura, para o brada poder fugir, e corremos todos,

Houve um mano (já não me lembro quem) que ganhou coragem,
E pediu aos demais para montarem,
Uma corrente de força,
Por instantes, os bófias pararam de bater (afinal de contas eles também ficam com medo),
Segundos depois receberam a ordem,
Do prórpio VICE-ADMINISTRADOR,
Que no princípio pareceu-nos ser da paz (esta paz de rascunho, cheia de borrões), para dispararem, e foi assim que tudo começou,
Os disparos não paravam, parecia que estávamos em estado de GUERRA,
Mas será possível alguém fazer GUERRA com papeis na mão?
Cantando a dor e o sofrimento deste povo (POVO BURRO),
Que assistiu a violência protagonizada,
Coniventes sem no mínimo intervir,
A POLÍCIA ao lado a defender os CAENXES do bento kangamba,
Ainda no Cazenga na sequência da corrida,
O grupo todo ficou disperso, alguns caíram na estratégia dos CAENXES,
Outros tiveram a sorte de receber abrigo,
Em casa de Angolanos que se sentiram solidários a causa,
Eu, o mano MALEMBE, o kota Alexandre (jornalista da Voz da América, também levou) e o mano LUATY (ensanguentado com a cabeça toda fudida, quase que tínhamos que transportar o brada, de tanto enjoo “efeito da pancada levada na cabeça”) tivemos a sorte de ter conseguido abrigo (invadido) numa (uma) casa de TJ (Testemunhas da Jeová), que não nos entregaram mesmo não sabendo quem éramos,
No princípio os donos da casa, ficaram bwé assustados (o que é bem normal, para quem vê a sua casa invadida e um dos invasores a sangrar) e na rua os ASSASSINOS a gritarem agarra, são GATUNOS,
Naquele momento apesar da dor, apenas no ADÃO RAMOS,
O Luaty a perder os sentidos, mas não parava de repetir:
Harvey, o ADÃO… Nós deixamos o ADÃO
Liguem para o ADÃO,
Harvey, o ADÃO… Como é que está o ADÃO
Liguem para o ADÃO,
Naquele instante, até eu próprio esqueci-me,
Que tinha saldo no telefone (a aflição era tanta),
Tentávamos manter a calma,
Mas não era possível (até o SUPER HOMEM naquele situação ficaria assustado),
Uma cena bwé engraçada, que aconteceu: a casa tem um anexo (a família vive na casa grande e no anexo um dos filho), que no momento em que invadimos a residência, ele (o filho) se encontrava a dormir no seu anexo, ao ouvir o barulho feito pelo seu familiares, saiu a correr e ficou em frente a porta de casa impedindo a nossa entrada, na aflição entramos (eu e o Luaty) no anexo do brada (o filho, que saiu para proteger a famílias, mesmo sem saber se estávamos armados ou não) e tranquei deixando de fora o Malembe e o kota Alexandre… Quando o Malembe chamou por mim, abri e dei de frente com o kota Alexandre (e ele estava com um chapéu e óculos escuros), e dentro de mim eu pensei pronto agora estamos feitos,
Mas o Luaty reconheceu e disse que era jornalista e só assim eu deixei entrar e trancamos a porta,
Ficamos todos quietos, atentos a movimentação, 10 ou 15 minutos depois os donos da casa começaram a bater a porta: “PODE ABRIR… SOMOS NÓS, OS DONOS DA CASA. PODE ABRIR!!! SE NÃO ABRIR, VAMOS CHAMAR A POLÍCIA”,
Ficamos na dúvida e com bwé de desconfiança e as últimas palavras aumentaram ainda mais o nosso medo,
O kota Alexandre (que eu suspeitava ser um bófia), pediu que eu abrisse a porta, abri e só assim conseguimos explicar o que realmente se passava,
Marcou-me muito a hospitalidade e a preocupação deles a 4(quatro) indivíduos estranhos (que poderiam muito bem ser GATUNOS como gritavam na rua os CAENXES),
Fomos bem tratados com direito a comida e bebida (marcou-me muito a forma que a família sentiu a nossa aflição)
Fizeram o curativo ao Luaty, dei indicações a um dos putos para controlar a zona e recolher informações (sem dar bandeira), assim o fez,
O Malembe continuava bwé assustado, e nós (eu, o kota Alexandre e o Luaty) a fingir que não estávamos,
O kota Alexandre pediu a família, que agissem naturalmente para não chamar a atenção e assim o fizeram,
Gravou-se uma entrevista em directo para a RTP (por intermédio do kota Alexandre),
E entramos em contacto com os outros manos para saber da situação,
Minutos depois tivemos, informação que o ADÃO RAMOS, estava fixe,
E que o kota BONAVENA apareceu no local, para lhe socorrer,
Esperamos que a poeira baixasse, mas o BÓFIAS continuavam nas ruas e nos becos do Cazenga, os gajos usaram crianças para passarem informações,
Horas depois, no período da tarde, depois de vários contactos,
Conseguimos boleia (três carros) e saímos seguros da residência que carinhosamente nos acolheu,
O MEU MUITO OBRIGADO A ESTA FAMÍLIA, PELA HOSPITALIDADE E A PREOCUPAÇÃO, QUE POR MOTIVOS DE SEGURANÇA DA MESMA NÃO IREI MENCIONAR O APELIDO… ESTA FAMÍLIA FICARÁ PARA SEMPRE NO MEU CÉREBRO E TATUADA NO MEU CORAÇÃO,
Este sim (a família que nos acolheu), eu tenho mais do que um motivo para BAJULAR,
OBS.: Para vocês terem noção, do porque da minha admiração por esta família, as 19H e qualquer coisa, uma das integrantes da família que tinha ficado com o meu número ligou para saber do estado de saúde do LUATY,

CENÁRIO DA SAGRADA FAMÍLIA:
Horas depois de sairmos do Cazenga, tivemos informação que algum pessoal ferido encontrava-se no hospital AMÉRICO BOAVIDA,
Mas um bom número continuava a ser agredido, na zona do supermercado JUMBO, na VILA-ALICE, na SAGRADA, na PRAÇA DA INDEPENDÊNCIA, enfim, havia muita violência patrocinada pelo suposto EMPRESÁRIO DA JUVENTUDE (bento kangamba), que mais uma vez mostrou ao mundo a democracia do JES/MPLA,
O kota FILOMENO minutos antes de ser agredido por 4 (QUATRO CAENXES), ligou para a comandante BETY, a alertá-la do que se estava a passar,
Mas nada mudou,
Ninguém me tira da cabeça que a porrada do kota FILOMENO, não tenha sido indicada, porque os CAENXES recebia orientações por telefone, deixaram escapar tantos para seguirem o kota e espancá-lo numa cantina do MAMADOU,
Por que será?
Quem orientou, a violência? Quem?
Minutos depois a comandante BETY foi vista a passar no local… Há quem diga,
Que ela apenas foi confirmar se o trabalho estava a ser bem feito,
Indefesos continuamos pacíficos,
Lições extraídas em GANDHI, LUTHER e MANDELA,
Apanhando muita surra dos comandados dos novos HITLER,
Infelizmente Março Mulher ficou manchado,
Com a surra dada as senhoras que se fizeram presentes,
A estas ANGOLANAS (tia ERMELINDA, a ANA DIOGO, a ZITA, e a prima da ZITA e as demais senhores que não as conheço mas que estiveram) eu tiro o chapéu e faço a minha vénia,

ALGUMAS PERGUNTAS QUE FICAM NO AR:
Que futuro queremos para este PAÍS?
Quando é que teremos democracia?
Quando é que viveremos em liberdade (em todos os sentidos)?
Se ninguém pode pensar o contrário,
Cada vez mais estas e outras perguntas vão se tornando retóricas.

ASSINADO: Harvey Keitel Madiba[Louko por Opção]
10.03.2012 / 23h56min
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Que estas palavras fiquem no registo da história angolana e nas memórias colectivas dos seus cidadãos.

Isto aconteceu em Luanda, capital de Angola, em plena luz do dia, aos 10 de Março de 2012, no bairro Cazenga.

Para José Eduardo dos Santos, Bento Kangamba, Ambrósio de Lemos, Sebastião Martins: conscientes subversores da constituição.

(Obs: o relato abaixo não foi feito pelo indivíduo na foto que se chama Francisco. A foto é meramente ilustrativa do que sofremos ontem)

—————————————– RELATO DE TUKAYANO—————————————————————————–

Central, levei muita galheta no “demaio” com o puto mario de viana. Aquele miúdo é um guerreiro.

No zenga nao apanhei porque, antes de comecarem a bater, o Adão pediu para lhe por do lado do coque. Mal encostámos do outro lado comecaram a bater. Porra mano, foi Deus quem mandou tirar o Adão dali.

Nós corremos e fomos nos esconder numa oficina de bate chapas onde vimos in loco o David a Ser espancado a gritar:  “socorro, alguém me ajude, esse povo não esta a ver isso, que povo é este?”. Depois lhe deixaram andar um pouco e o coitado do kota Muanza a ver aquilo sem poder fazer nada. Ficámos aí.

Depois vimos a Zita, que até lhe pedimos pra ter calma, mas ela, como sempre uma destemida guerreira valente, a dizer: “venham já acabar de matar todos, não matam já? Estamos aqui! Porra, isso não se faz. Vossos filhos é que vão ajudar a vos matar, porque vocês nem sequer pão em casa conseguem levar”. Foram as poucas palavras da Zita que eu memorizei.

Lá veio o kota Bonavena pra buscar o Adão, acompanhado com o Vaz. Mas antes disso, eu tava a ver um gajo de verde alface que estava muito próximo a nós e cada vez que eu falasse ao telefone com o Adolfo, Gika, Libertador, Hexplosivo e Mbanza o cão esticava o pescoço e franzia a testa como alguém que quer apurar a audição Depois de dar conta fui ter com ele: “olha meu caro, se estás aqui pra ouvir conversas, baza só yá? Quem és tu? Conheces alguém aqui? O cão simplesmente mostrou um arranhão que deve ter apanhado ao espancar um dos nossos. Lá o Adao me pediu calma e um outro puto veio dizer “este deve ser mesmo nosso, lhe deixa” e lá vai o puto Mário de viana na sua calma de sempre: “Mô Kota lhe deixa lá”. Depois disso é que chega o resgate do Adão pelo Vaz e Bonavena, que levou também a Zita Revú mais uma prima e deixando 2000 kz para apanharmos táxi.

Depois disso, ficámos com a estranha sensação de estar a ser perseguidos que, de um momento para outro parou.

Conseguimos subir quatro pessoas no táxi e eu continuava a ligar para saber onde e como estavam os outros, para poder ligar ao Sampaio e ele descrever em real-time.

Chegando aos Congolenses, o Motorista viu que éramos quatro revús que precisávamos chegar até ao “de Maio” então chamou Alvalade-Maianga, nos deixou no beco da casa 70 e naquele momento deixámos de ser quatro Revus e passamos a ser três revus e um BUFO VERDE ALFACE, que sem o menor medo comecou a nadar. E nós a dizermos: “ele deve ter medo”, mas de repente eu lhe vejo a fazer sinal a um gajo de branco com moxila nas costas e digo ao Mário: “tamos fodidos esse wy e BUFO!”.

Naquela aflição, o primeiro número que estava aí era o do TIMAJÓ, ligo e começo a lhe descrever todo o movimento do BUFO VERDE ALFACE. Minutos depois, só vimos uma carrinha hilux a despejar bwe de bófias e a virem em nossa direcção. Com a aflição, entrámos os três num táxi que ia para o aeroporto, mesmo sem ter lugar para três e começámos a explicar porque estavamos a ser seguidos. Mas como revú tipo que nessa merda não tem sorte, para sorte do FILHO DA PUTA DO ZÉ DU, a merda engarrafa e o sinal FAVORECE OS BOFIAS.

Uum deles veio, abriu a porta e tinha uma senhora que nos agarrou e disse “não bate só esse moço”, a falar de mim e me agarrou com muita forca porque eu estava bem ao lado dela. Todos no táxi a dizer: “por favor nao façam isso são pequenos jovens que querem ver a vida deles melhor!”. Um deles disse ao senhor: “CALA BOCA CARALHO, SÃO GATUNOS”.

Me deram bwé de bicos no asfalto quente, eu levantei bem tonto e tentei correr. Me saltaram num POLICIA BURRO QUE TAMBEM GANHA MAL e me recebeu logo o telemóvel. O Mário ao tentar correr, lhe deram um bico dos pés e foi bater com a BOCA NA RELVA, ACHO QUE PITOU RELVA O PUTO. O outro puto ficamos sem saber, mas mais tarde o Massilon ligou a dizer que o puto conseguiu escapar.

Eu e o Mario fomos postos dentro do parque COM BWÉ DE POVO BURRO, a assistir sem dizer nada. Eu so tava a gritar ” MAS ESSA MERDA É DITADURA! FILHO DA PUTA QUERO O MEU TELEMÓVEL. O PUTO MÁRIO TAMBEM A POR BWÉ DE BARRA, mas neste lado sabes que não nos deram rosas né? KANDAMBALAS, GALHETAS, ME PISARAM NA CABEÇA E TUDO.

Depois te umas tantas galhetas, queriam levar o puto Mário, eu abracei o Ndengue duma forma que nem que eles metessem ÓLEO MANÁ nao ia nem ESCORREGAR.

Tentaram tirar-me a máquina do bolso. O puto Mário apertou a minha mão com tanta forca e prendeu o bolso com um dos dedos, os BÓFIAS NÃO APANHARAM NADA.

Ddepois veio um kota, acho que era o chefe deles, disse para pararem de bater e nesta altura eu tentei ligar para o Timas, só que levei uma DE CONTROLE, vi estrela yá?

Mesmo assim eu perguntei: “não posso falar com a minha família? O BURRO me diz: TUA FAMÍLIA E QUE TE MANDOU VIR AQUI FAZER MANIFESTAÇÃO PORRA, VOCE NAO TEM DIREITO DE LIGAR PRA NINGUÉM! Isso segundos depois de me entregarem o telefone e uma receita do Mario o BOFIA ainda lhe disse: “CARALHO, TÁS DOENTE AINDA QUER VIR SE MANIFESTAR, PORRA ESSE MIÚDO TEM CORAGEM, MESMO A FAZER MEDICAÇÃO?!”

Depois de uns minutos o CAGÃO que me GRELHOU ME DISSE “DESAPARECAM DAQUI!”

Ficámos no portão do parque, a estudar formas de sair sem apanhar. Conseguimos e depois fomos resgatados pelo MASSILON que nos deixou no cubico do JANG onde ficámos duas horas.

Fomos PITAR MAGOGAS NOS CONGOLENSES, o JANG nos acompanhou até a paragem e demos pra casa com o “de Maio” DESÉRTICO, MAS AINDA TINHA *MOSCAS DE COCÓ* (Polícias) …..

Testemunhas oculares e vítimas TUKAYANO E MARIO E POVO BURRO !!!

Bom, depois dos acontecimentos de hoje, já não restam dúvidas. Muitos falam do petróleo mas é o sangue que realmente faz este regime funcionar. Não o sangue deles, como é óbvio, mas sim o sangue dos inúmeros jovens e patriotas que foram hoje (tentar) se manifestar no Largo Primeiro de Maio. Enquanto saramos as nossas feridas e tranquilizamos as nossas famílias, só nos resta lamentar a forma como os nossos governantes derramam o sangue do próprio povo. A cor mais visível hoje foi o vermelho do sangue derramado por causa das agressões cobardes dos gorillas do regime, sempre à paisana e com diversas armas brancas.

Nem a presença de consagrados intelectuais da nossa praça, como Nelson Pestana “Bonavena” e Francisco Vieira Lopes, fez com que as agressões parassem. Aliás, estes dois também foram violentamente agredidos, porque afinal de contas gorillas não são capazes de pensamentos lógicos e acreditam piamente na razão da força em vez da força da razão. Os outros dirigentes partidários que prometeram aparecer, nem vê-los.

Hoje vimos o sangue a jorrar da cabeça do nosso mano Luaty. Vimos as agressões aos nossos manos Tukayano, Mário, e muitos outros. Hoje o regime mostrou que não tem o mínimo problema em violentar os seus cidadãos. O nosso sangue não vale nada. Está confirmado. As cenas que se passaram hoje em Luanda foram bárbaras, mas para um regime que está habituado a jorrar sangue, foi mais do mesmo.

Em Benguela o cenário foi o mesmo. O artigo 47 só está lá para enfeitar a constituição.

Para vocês defensores do regime e do “partido do coração”, só esperamos que saibam que estão a semear o ódio na vossa população. Nenhuma mãe gosta de ver o filho a jorrar sangue. Nenhum pai gosta de ver o filho a ser maltratado. Hoje foi uma valente demonstração do vosso medo, cobardes.

Mais notícias e fotos em breve.