Archive for the ‘Manifestação 3 de Dezembro’ Category

– O grupo que chegou ao Largo depois da debandada no Cazenga era bastante diminuto, sobretudo tenho em conta o contingente da Polícia com que nos deparámos.

– Mal nos avistaram começaram a comunicar com os seus walkie-talkies. Sentiu-se uma tensão instantânea.

– Começaram a dispor-se em linha ao longo da divisória central por onde nos aproximámos.

– Seguimos em direção a eles, determinados em atingir o nosso objetivo final, o Largo da Independência.

– Ao chegarmos em frente a eles perguntámos “Quem é o responsável por esta missão? Queremos falar com o
responsável e só com ele!”

– O responsável identificou-se com um simples “sou eu o responsável”. Comunicámos a nossa intenção de chegar ao Largo exibindo-lhe a carta enviada ao GPL e ao CGPN cumprindo com a totalidade dos trâmites legais.

– Apesar de tudo isso, mais uma vez e de forma arrogante, o Comandante nos comunicou que voltassemos para as nossas casas que para o Largo não iríamos.

– De imediato começou o empurra-empurra, que foi degenerando pois recusámo-nos acatar uma ordem arbitrária sem respaldo legal.

– Os cães entraram em serviço, mas acabaram por ser retirados depois de morderem um rapaz.

– Os kaenche de serviço carregaram uma, outra e ainda outra vez, tantas vezes que perdemos a conta.

– Foi deveras revoltante pois tudo isso se passava e menos de um metro da linha da polícia e eles continuavam a assobiar para o ar.

– O Jang Nómada que estava incansável a tentar mediar o diálogo entre PN e manifestantes foi o primeiro a sofrer, tendo-lhe sido desferidos vários socos que lhe rebentaram os lábios.

– Não recuou por um segundo e assim que o largaram, voltou a ocupar o posto do qual se auto-incumbiu.

– Essa valentia valeu-lhe mais duas agressões ao longo da tarde e banho do líquido.

– Numa das investidas o Adolfo Campos e o Luaty Beirão levaram com o líquido, o Adolfo mais gravemente atingido nos olhos e tendo uma reacção de choque, quase perdendo os sentidos.

– Começou então uma operação de socorro no local, com os manifestantes a despejarem-lhe água no rosto, enquanto ele parecia ter entrado em estado catatónico.

– A polícia, em mais uma atitude criminosa, não facilitou a tarefa, continuando a empurrar-nos para trás com violência, mesmo vendo o Adolfo sentado no chão, quase desprovido de sentidos.

– Resistimos e implorámos que nos deixassem levá-lo ao Hospital Militar, o mais próximo do local.

– Passaram-se mais de 10 minutos de empurrões e caos até que o Comandante Franck desse ordem para metê-lo num carro da Polícia.

– Via-se que havia várias pessoas a dar ordens pois os menos de 50 metros que tivemos de percorrer para chegar ao carro não foram sem sobressaltos, cada agente tentando impedir-nos de continuar.

– O Adolfo foi levado para o Hospital da Polícia, por trás da Unidade Operativa, acompanhado pelo Luaty e pelo Luamba.

– Mais tarde juntou-se a eles o Alexandre Dias dos Santos “Libertador”, também ele vítima do infame líquido.

– Entretanto no largo um dos Kaenches descuidou-se e caiu na mão de um grupo de manifestantes que descarregaram nele a fúria acumulada e inverteram a regra enchendo-o de pontapés e socos. A polícia veio socorrer o seu homem.

– O Carbono que estava periférico à manifestação assistindo de longe, enquanto conversava com a activista da Human Rights Watch, foi agredido por 3 kaenches que lhe despejaram 4 garrafas do “sumo” nos olhos.

– Correu, cego, procurando o socorro da polícia a menos de 10 metros, mas esta agarrou nele e facilitou a tarefa aos agressores, ajudando com uma torrente de puretes na cabeça.

– Depois de serem socorridos, Adolfo, Luaty, Luamba, Libertador, foram encontrar-se com o Jang que ainda estava no Largo.

– Aí repararam que os cães tinham sido levados e os cavalos tinham vindo substituí-los.

– Com o cordão policial misturaram-se os kaenches que transportavam puretes da polícia nas mãos.

– Um deles fez questão de exibir uma arma.

– Os cavalos carregaram, os manifestantes correram, desgastados mas não vencidos.

A luta continua!

As notícias acerca da violenta repressão por parte das autoridades angolanas contra um grupo de jovens manifestantes indefesos em Luanda, bem como a detenção do conhecido jornalista e activista Rafael Marques e a agressão à directora da Human Rights Watch, Lisa Rimli, já fazem correr tinta nas principais cadeias de informação mundiais. Deixamos aqui alguns links para a vossa leitura e partilha:

Reuters: Angolan police, youths clash at protest rally
http://www.reuters.com/article/2011/12/03/us-angola-rally-idUSTRE7B20QG20111203

Público: Violência policial contra manifestação anti-Eduardo dos Santos
http://www.publico.pt/Mundo/violencia–1523661

Wall Street Journal: Police arrest anti-government protesters in Angola
http://online.wsj.com/article/BT-CO-20111204-702649.html

Voice of America: Investigadora da Human Rights Watch agredida em Luanda
http://www.voanews.com/portuguese/news/Human_Rigths_Watch_12_03_2011_voanews-134962648.html

Não nos vamos estender em muitos detalhes e cingir-nos-emos aos factos mais marcantes que as nossas retinas registaram, que a nossa carne sentiu e aos quais centenas de pessoas testemunharam. Ficarão a faltar alguns, de certeza igualmente ou até mais graves que ainda não chegaram a nosso conhecimento.

– por volta das 9 da manhã, quando éramos ainda muito poucos em frente ao tanque do Cazenga, a primeira intervenção dos kaenches a civil sob o olhar atento da policia fardada: “assaltaram” os manifestantes retirando-lhes com agressividade os seus dísticos e cartazes.

– os manifestantes encetam a primeira tentativa de diálogo com o responsável de serviço da PN para se identificarem e discutirem a agenda da manifestação, mas são recebidos com as palavras: “quem vier falar comigo, vou dar na cara”.

– pouco antes das 13h, a marcha do Cazenga arranca mas não consegue percorrer 200 metros até se ver obstruída por um cordão policial.

– esse primeiro cordão é desorganizado e facilmente contornado pelos manifestantes.

– outra centena de metros foram percorridos até que um bloqueio mais consistente, com algumas viaturas, é formado.

– apercebemo-nos de um veículo a chiar atrás de nós. Era um Toyota Prado preto que furava o bloqueio da estrada realizado pelos manifestantes, em alta velocidade e criminosamente conduzido para cima destes PELA COSTAS!

– o inevitável aconteceu e o carro conseguiu atropelar o manifestante Massilon Chindombe, que, miraculosamente, não sofreu consequências mais graves do que uma séria dor de costas, uns arranhões do embate no asfalto e a inutilização do seu telemóvel.

– ficamos a saber minutos mais tarde, que o Prado era conduzido pelo Comissário Filipe José Massala, tirámos fotografias e a matrícula: LD-64-47-AE.

– em retaliação a essa atitude assassina da parte de quem esperamos protecção, alguns manifestantes se insurgiram contra o carro da policia que seguia o prado, tendo partido o vidro do condutor.

– enceta-se uma tentativa de negociação. Nós mostrámos a carta ao GPL e ao CGPN informando da realização da manifestação. Perguntamos por documentação ou lei que contrarie o nosso acto. Revelam-se incapazes de os produzir, repetindo apenas as suas ORDENS ARBITRÁRIAS E ILEGÍTIMAS.

– cria-se um impasse que leva largos minutos e, atrás da linha da policia fardada, começam a acumular-se indivíduos de feições maliciosas e de temível constituição física. Eram vários e não conseguiam dissimular a sua sede para a acção.

– quando chegou o seu momento, agiram de maneira concertada: uns seringavam os olhos dos manifestantes com um líquido artesanal para provocar ardor e cegueira temporária, enquanto os outros pegavam nesse manifestante e o enchiam de socos e pontapés, mais uma vez perante o olhar impávido da policia.

– o pânico instalou-se e os manifestantes entraram em debandada, atirando pedras e garrafas para os agressores.

– separámo-nos em pequenos grupos e fomos nos concertando para nos reorganizarmos já no largo da independência.

– os poucos jovens que se concentravam no S. Paulo aguardando estar mais gente para arrancar com a sua marcha, nem tiveram tempo de sair, sendo também eles submetidos a similares sevícias (porrada e agressões), não sendo poupados à este trato desumano nem os jornalistas e nem o amigo Adão Ramos, portador de deficiência física que lhe condena a locomoção com cadeira de rodas, tendo ele sido lançado, como se de um saco de batatas se tratasse, para a traseira da carrinha da polícia, levando ainda com a própria cadeira de rodas no lombo depois desta ser projectada para cima dele, acompanhados dos mais vis impropérios referentes à sua já diminuída condição.

– depois da debandada, ficámos bastante reduzidos e, quando chegámos às proximidades do Largo da Independência, demo-nos conta que o efectivo que lá estava e nos transcendia em número, não tinha ido para “distribuir rebuçados” e não faziam intenção de nos deixar progredir até ao Largo da Independência. Adivinhava-se um segundo round de brutalidade policial que, infelizmente, se veio a constatar.

Contínua…

Durante as próximas horas e os próximos dias iremos postar imagens e relatos da reprimida manifestação de hoje, dia 3 de Dezembro de 2011 (caso a EDEL nos deixar, claro). Há muito para dizer e contar, foram vários os feridos, espancados, e até atropelados, mas dado o avançar da hora e o nosso elevado estado de indignação, tristeza, raiva e impotência ficaremos com as seguintes images que espelham bem o rosto da repressão activa que se faz sentir na democracia vibrante e participativa de Angola, como a chama o Presidente angolano no poder há 32 anos sem nunca ser eleito pelo povo.

Este jovem foi brutalmente espancado por agentes não identificado vestidos à civil.

Vítima de brutalidade policial em Luanda

Nome: PEDRO
Delito: SONHAR

Nome: PEDRO Delito: SONHAR

Ainda não conseguimos recuperar a carta dos manos que vão sair do S. Paulo, mas temos aqui a cópia com acusação de recepção por parte do GPL dos manos que saiem do Tanque do Cazenga. Prova que estamos legítimos:

Há pelo menos 4 diferentes convocatórias, das quais 3 deverão convergir para formar uma grande massa única:

– Uma marcha saíndo do S. Paulo e culminando no Largo da Independência.

– Uma marcha saíndo do Tanque de água do Cazenga e culminando no Largo da Independência.

– Uma concentração da comunidade/associação de deficientes físicos a ter lugar no Largo da Independência.

– Uma manifestação da Fundação 27 de Maio que agora promove uma todos os sábados até conseguirem cedências para as suas exigências.

Para as duas primeiras as concentrações nos pontos de partida respectivos estão agendados para as 9h da manhã. Estamos a tentar conseguir um scan das cartas com acusação de recepção do GPL para provar que está tudo legítimo.

VAMOS TODOS DAR AS BOAS VINDAS AO NOSSO NOVO GOVERNADOR DE LUANDA, BENTO FRANCISCO BENTO.